Segunda-Feira, 24 de Abril de 2017 |

Colunista


Cantinho Ecológico


Marco Aurélio


verdade@cpovo.net


A reciclagem e a copa do mundo

Embora abriguem estádios estruturados para a separação do lixo, as 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 ainda apresentam uma realidade desoladora quanto à reciclagem fora das arenas. Um levantamento feito pela BBC Brasil junto às prefeituras dos municípios que sediarão os jogos do Mundial no ano que vem revela que em nenhum deles mais de 10% do lixo recolhido diariamente é reciclado via coleta seletiva. Em grande parte das cidades-sede, a taxa é inferior a 5%. Em quatro delas (Fortaleza, Manaus, Natal e Cuiabá), o índice não supera 1%. Porto Alegre (9,1%) lidera a lista com o maior coeficiente de lixo reciclado, seguida por Belo Horizonte (7%) e Curitiba (6,6%). Completam o ranking Brasília (5%), Salvador (5%), São Paulo (2,1%), Recife (2%) e Rio de Janeiro (1,4%). Juntas, as 12 cidades-sede e suas regiões metropolitanas são responsáveis pela produção diária de 35% dos resíduos sólidos urbanos do país, ou 91 mil toneladas de lixo. Na avaliação de especialistas, o cenário reflete décadas de falta de políticas públicas para combater o problema. Reagindo a isso, há cerca de três anos, o Congresso aprovou o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece as diretrizes para a destinação adequada do lixo e prevê que as prefeituras criem programas de coleta seletiva.

O panorama da reciclagem no Brasil

Atualmente 766 dos 5.565 municípios brasileiros, ou 14% do total, operam programas de coleta seletiva, segundo a mais recente pesquisa Ciclosoft, realizada pelo do Compromisso Empresarial para a Reciclagem (Cempre), associação empresarial dedicada à promoção da reciclagem e gestão integrada do lixo. De acordo com o levantamento, a população atendida por tais programas chega a cerca de 27 milhões de brasileiros, um número baixo se considerado os quase 200 milhões de habitantes do país. Além disso, a maior parte das iniciativas ainda se concentra nas regiões Sudeste e Sul do país. Do total de municípios brasileiros que realizam esse serviço, 86% estão situados nessas regiões. Em praticamente a metade deles, a coleta seletiva de resíduos sólidos (a chamada fração seca, ou seja, tudo o que não é lixo orgânico, como restos de alimentos, por exemplo) é feita pela própria Prefeitura, que, em sua grande maioria, apoia ou mantém cooperativas de catadores. Um levantamento do Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea) encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) calcula que o Brasil perde cerca de R$ 8 bilhões por ano ao deixar de reciclar resíduos que, em vez de ganharem nova utilidade, vão parar em aterros e lixões das cidades.

Problemas da reciclagem no Brasil

Segundo dados do IBGE, três em cada dez domicílios brasileiros separam o lixo orgânico do não degradável. Porém, apenas 40% desse lixo separado dentro de casa ganham destinação adequada, ou seja, são coletados de forma seletiva quando chegam às ruas. Como em muitas cidades brasileiras, a coleta de material reciclável (plástico, metal, papel e vidro) é realizada uma única vez por semana, nos outros dias o dejeto, mesmo que separado, acaba misturado ao resíduo comum dentro dos caminhões. Já para a especialista Elisabeth Grimberg, sócia-fundadora do Instituto Pólis, parte da culpa pelos baixos índices de reciclagem é das empresas, muitas das quais ainda não financiam a coleta e o retorno do material reciclável à produção industrial após o consumo, conceito conhecido como ‘logística reversa’. ‘Apesar de ser tratado no Plano Nacional de Resíduos Sólidos, o conceito ainda não foi implementado em sua integridade’, disse ela à BBC Brasil. Por essa ótica, por exemplo, um fabricante de eletroeletrônicos deveria dar destinação adequada a uma TV da qual um consumidor queira se desfazer. O diretor-executivo do Cempre, André Vilhena, discorda. Para ele, ainda que as responsabilidades sejam ‘compartilhadas’, cabe à Prefeitura um ‘papel central na coleta seletiva’.

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