Segunda-Feira, 24 de Abril de 2017 |

Colunista


Cantinho Ecológico


Marco Aurélio


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UMA ARQUITETURA AMIGA DAS AVES

* Um fato que muitas vezes passa despercebido e pouco chama a atenção é a morte de aves por colisão com os vidros que dominam a maior parte dos edifícios modernos. A bióloga Marinês Eiterer, publicou um artigo bastante elucidativo sobre o assunto. Vamos aqui mostrar alguns dados publicados e a opinião do Arquiteto Guilherme Motta de Oliveira sobre as nossas construções. A autora nos relata que as aves não veem vidros e, segundo dados da American Bird Conservancy, cerca de 300 milhões de aves morrem a cada ano vítimas de colisões com vidros de janelas, tanto de casas quanto de prédios. Aqui no Brasil não existem estudos sobre este fato. Em 2006, no entanto, verificou-se que apenas no Edifício da Procuradoria Geral da República, em Brasília, projetado por Oscar Niemayer, ocorriam 3 colisões a cada dois dias e 1 morte a cada 3 ou 4 dias. O prédio tem 11 anos, admite-se então que neste período foram cerca de 1100 aves mortas, além das podem ter morrido mais distantes. Como seria uma arquitetura amiga das aves? Uma arquitetura amiga das aves é incentivada em algumas países para reduzir o problema. A solução é simples: reduzir a área reflexiva ou transparente do vidro ou não usar vidro. A medidas para isso podem ser caseiros, sofisticados, baratos ou caros, podem ser adotadas ainda no projeto de construção ou aplicadas mesmo em construções antigas. Um exemplo é o Kunthaus Bregenz na Áustria, onde o arquiteto suiço Peter Zumthor usou vidro, mas preferiu vidros translúcidos, que deixam entrar luz dentro do prédio sem o perigo do reflexo ou da transparência.

* Em outubro de 2013 a ONG Aves de Viçosa conversou com o arquiteto Guilherme Motta de Oliveira sobre o uso de vidros na arquitetura e para saber se os arquitetos estão preocupados com o impacto do uso do vidro na arquitetura sobre a avifauna local. Guilherme Motta de Oliveira é arquiteto formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora e diretor da empresa AuE Soluções, empresa que desenvolve softwares para paisagismo e irrigação e vem ajudando a promover o setor desde 1997.

Guilherme: Antigamente as paredes tinham função estrutural, ou seja, ajudavam a sustentar a edificação. Com o concreto armado as construções não dependem mais das paredes, esta possibilidade trouxe o vidro como uma marca da modernidade e do avanço tecnológico. Antigamente não era possível construir um prédio com uma fachada de vidro.
Um fachada de vidro tem leveza e marca um prédio com um status próprio, normalmente é usada para caracterizar o prédio de uso comercial. A questão mais comum com um "prédio de vidro" está ligada ao conforto térmico, o ambiente fica mais quente nos dias quentes e mais frio nos dias frios. Então o uso indiscriminado de fachadas de vidro leva a necessidade de um sistema de ar-condicionado e aquecimento central que desperdiça muita energia para ser habitável o que atualmente não é recomendado. Estamos na era das construções ditas ecológicas onde a eficiência energética caracteriza a nova modernidade.
Atualmente as edificações mais "modernas" buscam um selo de sustentabilidade como o Green Building Council (http://www.gbcbrasil.org.br) e a conservação de energia é um dos quesitos principais. Os EUA possuem muito mais torres de vidro que o Brasil, por vários motivos, até por uma questão de clima, no Brasil conseguimos construir um prédio que pode ser utilizado sem ar condicionado em muitas cidades, nos EUA, é muito mais difícil ou mesmo impossível, soluções de aquecimento e refrigeração muitas vezes são obrigatórias. No Brasil os prédios de vidro não são tão comuns, mas existe o modismo e a mania de copiar as soluções estrangeiras. Normalmente o excesso de vidro não é indicado para nosso clima, mas o interesse de transmitir status tende a determinar a escolha deste material. Não é possível dizer que o uso indiscriminado do vidro seja responsabilidade dos arquitetos, mas com certeza o foco dos profissionais é no conforto humano, nos usuários das edificações. Impactos sobre a avifauna é uma preocupação distante e ainda de poucos profissionais.

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