Sbado, 08 de Agosto de 2020 |

Colunista


Conversando sobre o cotidiano


Paulo Franquilin


franquilin.pc@gmail.com


O dedo de dona Georgina

Dona Georgina mora numa vila da periferia da cidade e trabalha como separadora na usina de reciclagem. A vida não é fácil, acordar cedo, caminhar alguns quilômetros até a usina, diariamente, pois não tem dinheiro para a passagem do ônibus.

Sua casa, onde mora com mais oito pessoas, é um quadrado de madeira medindo três por quatro metros, com um banheiro improvisado de tijolos mal assentados, dormindo sobre seu colchão de papelão.

Água e luz são trazidas de longe, com fiação e encanamento clandestinos, como na maioria das casas daquela parte da vila, aonde o esgoto ainda não chegou.

Numa rotina de carregar e separar latas e garrafas pet, teve um acidente, quando um dos fardos de latas amassadas caiu sobre seu pé direito, atingindo seu dedo mínimo, originando uma dor insuportável.

Foi ao posto de saúde e depois de horas numa sala de espera, foi atendida e saiu de lá com uma faixa no pé e alguns comprimidos para a dor, pois havia quebrado um dos ossos do dedo, havendo necessidade de cirurgia, sem previsão de data pelo SUS, nem tampouco dinheiro para pagar o procedimento.

Mas a vida segue e, no dia seguinte, mancando vai trabalhar, retornando à sua rotina de ficar em pé por muitas horas, separando os materiais, já com a faixa encardida depois da caminhada para chegar à usina.

Os catadores perguntam o que houve, explica diversas vezes, sem pressa, falam que é a mesma lesão do Neymar, o qual, depois de fazer cirurgia, vai ficar afastado dos gramados por, no mínimo, uns 90 dias, prejudicando o planejamento da seleção brasileira.

Dona Georgina sorri com seus poucos dentes e continua a separar latas e garrafas pet, com muita dor no dedo fraturado, pensando em tudo que aconteceu com Neymar, ficando preocupada se o craque brasileiro não vai poder jogar a Copa da Rússia...

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