Sbado, 31 de Outubro de 2020 |

Colunista


Conversando sobre o cotidiano


Paulo Franquilin


franquilin.pc@gmail.com


Medo

Moro na periferia da cidade, onde o acesso é difícil, porque os ônibus não chegam, assim preciso caminhar muito por ruas e becos de terra, sem estrutura, com esgoto a céu aberto e sistemas de água e luz deficitários.

Minha casa é um amontoado de pedaços de madeira, juntados com pregos e arames, formando uma estrutura coberta com algumas telhas velhas e lonas, improvisando um telhado, não tenho assoalho, apenas a terra batida.

Meu banheiro é formado por duas tábuas, que isolam um vaso e uma pia velhos, junto ao espaço onde dormimos e fazemos nossa comida num fogão quebrado, com apenas uma boca funcionando, se tivermos gás.

Trabalho catando latas, papéis e vidros nos lixos da cidade, percorrendo a pé grandes distâncias, procurando encontrar material para levar até o centro de reciclagem e juntar alguns trocados para alimentar eu, minha mulher e seis filhos.

Minha realidade não é muito diferente de milhares de moradores da cidade, que vivem nas mesmas condições e enfrentam os mesmos problemas. Somos uma parcela grande da sociedade sem acesso à mínima infra-estrutura.

O posto de saúde mais próximo fica distante, com poucos funcionários e escassos remédios para serem entregues, estando, normalmente, lotado de pessoas em busca de atendimento médico.

Agora estou isolado com minha família em casa, não posso sair para catar lixo, pois a recicladora fechou devido a esta crise do corona vírus, então fico em casa, sem nenhum alimento, esperando doações que venham pela associação de moradores ou alguma organização de apoio.

Meus filhos não estão estudando, a escola pública fechou, assim ficam em casa, brincando com pedaços de madeira e latas, enquanto eu fico olhando para o teto remendado, esperando que tenhamos comida para uma refeição no dia.

Por não poder trabalhar, não consigo trazer comida para minha família, também não posso adoecer, pois não tenho planos de saúde e ficarei esperando em filas nos hospitaís, nem tenho água ou luz, porque não instalei os gatos.

Tenho medo de que minha família morra por tantas deficiências que minha cidade apresenta.

COMENTÁRIOS ()