Sexta-Feira, 24 de Novembro de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Democracia de faz-de-conta
Sem educação a democracia é de mentirinha, já dizia na semana passada. Se o povo não é instruído, não pensa. Não analisa, não critica, não busca mais informação. E fica passivo, procurando resolver as suas necessidades básicas, concretas, como alimento e abrigo. Não vai se importar com questões abstratas, como ideologias, gestão pública, política. E não vai, portanto, exercer o poder a que teria direito numa democracia, que é, literalmente, “poder do povo”. Não é o que temos no Brasil hoje? A grande massa acredita mesmo que temos uma democracia que funciona porque podemos votar na urna eletrônica. Quem está indo às ruas nesses dias, querendo praticar democracia, é menos do que 0,5% da população. Mas que felizmente está fazendo um barulho...
Então estamos começando a nos acordar. Estamos nos manifestando porque temos cada vez mais informação, e porque conseguimos pensar sobre o que nos informamos. Fora as exceções dos vândalos e marginais, a imensa maioria dos manifestantes é de gente com um pouco mais de instrução. Isso tudo nos leva à conclusão óbvia de que, se queremos uma nação melhor, não há caminho senão a educação. Claro que leva um tempo, não é fácil, mas é o jeito.
Mea culpa
A propósito, os governantes deveriam reconhecer que a violência infiltrada nas manifestações também é consequência de sucessivos governos ineficientes, que não cuidaram da educação como deveriam. Povo instruído não vandaliza, não saqueia, mas sabe praticar cidadania, como os manifestantes pacíficos fizeram.
Anúncios e anúncios...
E eis que “de repente, não mais que de repente”, surgem anúncios animadores de mais investimentos em educação. Ufa! Antes tarde do que nunca! Mas... que investimentos?
Primeiro, vamos combinar: muita grana e pouco planejamento dá bobagem! Daqui a pouco teremos corruptos com bolsos cheios, banheiros de mármore nas escolas, e os professores ainda recebendo essas merrecas. Qual é o plano, afinal?
A Coreia do Sul, sempre uma referência em educação, desenvolvimento e qualidade de vida, colhe hoje os frutos do plano de educação que desenvolveu nos anos 50, com metas audaciosas para serem atingidas em cada década. Esse plano era (e ainda é) monitorado de perto pelos agentes públicos e pela sociedade, e permanece em execução independente de que partido ocupe o poder. Lá, por exemplo, a profissão de educador é levada a sério, como função estratégica da nação, e um professor com doutorado, no último nível da carreira, pode chegar a receber um salário equivalente a quase R$ 100 mil!! No início da carreira o piso é equivalente a R$ 5.500!! E não é só o salário. Tem investimento pesado em qualificação permanente dos educadores e gestores e também em tecnologia e infraestrutura.
Aqui, no parlamento tupiniquim, teve um presidente do Senado que sugeriu, no calor dos oportunismos, investir os royalties destinados pelo governo à educação em... Passe livre para os estudantes! Demagogia em essência extra-pura. Acalma o Movimento Passe Livre, agrada os estudantes, sai como bonzinho e joga um balde de água fria nos protestos contra os políticos. Fala sério!
Plano é o que não falta
Ainda temos que ressaltar o seguinte: já existe um Plano Nacional de Educação tramitando no Congresso desde 2011. Esse PNE já previa investimento de 10% do PIB na educação, então essa manchete não é de agora, e tem bastante parlamentar oportunista querendo erguer a taça por ter "ouvido as ruas" em 2013. Mas é um plano que precisa ser aprimorado, pra tirar um pouco da carga ideológica impregnada nos currículos e agregar mais disciplinas que levem os estudantes, de todos os níveis, a ter ganhos reais de aprendizagem e desenvolvimento. Não basta melhorar os índices de aprovação/reprovação através do afrouxamento das avaliações, mas tem que educar melhor para poder cobrar melhor. Aqui no Estado, 65% dos alunos no final da fase de alfabetização têm dificuldades de ler e escrever! Dois terços! Mas continuam passando de série em série...
Mas quando será?
Outra questão, e bem desanimadora, é o ufanismo em cima dos royalties do pré-sal, dos quais 75% seriam agora destinados à educação e os outros 25% à saúde. Estima-se que esses valores, dos royalties, girem em torno de 8 bilhões de reais por ano, o que parece importante, só que os 75% disso (6 bilhões) na verdade representam pouco diante do que já é gasto hoje na área, que beira os 200 bilhões/ano. Ou seja, um acréscimo de 3%. Não sei se isso vai fazer tanta diferença assim... e, pior, sem um plano consistente. E pior ainda: royalties do pré-sal só daqui a cinco, seis anos...
Ver para crer
Subir na tribuna e convocar entrevista coletiva pra anunciar dinheiro é fácil. Quero ver fazer isso chegar a cada sala de aula da Nação. O cético de plantão aqui ainda não tem muitos argumentos pra ficar mais otimista, por enquanto.

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