Segunda-Feira, 20 de Novembro de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Aprendizado
A atividade política e a administração pública são coisas diferentes. Ou deveriam ser. O ativismo partidário e a gestão da coisa pública deveriam guardar certo distanciamento, mas não é o que ocorre. Em democracias novas e pouco amadurecidas, como é o nosso caso, é comum, infelizmente, misturarem-se os interesses de Estado, de governo e de partido. Parte da culpa desse fenômeno é da própria Constituição, que acaba de comemorar seu jubileu de prata. A Carta Magna de 1988, que inicialmente começou a ser redigida num cenário que apontava para o parlamentarismo, acabou ao final, cedendo à pressão de velhas oligarquias políticas, sobretudo de grandes caciques do nordeste, oficializando o presidencialismo. Mas boa parte do texto manteve mecanismos que são próprios de um sistema parlamentarista, como as medidas provisórias e outros, o que no presidencialismo acabou se revelando um instrumento de concentração de poder na figura do presidente, que acumula as funções de chefe de Estado e de governo (o que no parlamentarismo é dividido em duas pessoas distintas). No sistema que vivemos, também não acontece com naturalidade a dissolução do Parlamento e a consequente destituição do primeiro-ministro, como é comum ouvirmos de nações de regime parlamentarista do Velho Continente ou da Ásia. Por aqui, o presidente é um semideus, todo-poderoso, e só uma gigantesca inabilidade política poderia resultar em um impedimento, como foi o caso de Fernando Collor.Mensalões e dólares em cuecas acabam sendo tiradas de letra.
Na era Lula, o quadro se agravou. Assistimos a um aparelhamento político do Estado como nunca antes na história deste país. Ações de governo, sem cerimônia, denunciavam estratégias aquém dos interesses da Nação, mas em clara sintonia com ideologias partidárias, e políticas estratégicas de Estado, tanto sob a ótica da soberania nacional quanto nas questões da diplomacia internacional, cediam terreno à mudança de rumo, sempre mais à esquerda, em ostensiva aproximação com os governos de inspiração bolivariana, como Venezuela e Bolívia, além de outros regimes “não alinhados”, como Cuba, Irã e China (aliás, esta é uma parte da motivação que teve o governo norte-americano em espionar o Brasil, porque afinal estamos ficando cada vez mais amigos dos inimigos deles, o que, no mínimo, acende alguns alertas).
Na Capital da Solidariedade não é muito diferente. A propósito, alguém ainda chama Alvorada assim? Parece que estamos sutilmente guardando este título em alguma gaveta, junto com outros espólios de eras passadas, como a marca do sol nascente e o hino da cidade. São coisas assim que denunciam que os interesse partidários, na política, ganham mais espaço do que os interesses públicos. Uma honrosa exceção é a Feira do Livro, que mais uma vez está enchendo a Praça de alegria, mas parece que na própria Secretaria da Educação, longe do olhar do público, foi um pouco diferente. O Centro de Educação Ambiental Sala Verde Ligia Rockenbach, um espaço interessante da SMED, foi colocado em segundo plano, não estabelecendo a devida atenção pela atual administração. A Sala Verde teve um papel fundamental nas escolas municipais em atividades de educação ambiental, como palestras, plantação de árvores e laboratórios, mas, apesar de sua importância, foi implodida. Servidores que estavam coordenando as atividades foram sumariamente destituídos dessas funções, sem mesmo tempo para organizarem seus pertences. A tensão foi tanta que resultou até em boletim de ocorrência. Ainda não há definição sobre a continuidade dos trabalhos relacionados ao meio ambiente nas escolas, mas o que ficou evidente, mais uma vez, é que ainda um longo caminho para se atingir a maturidade política que nossa democracia espera, quando enfim saberemos conviver com conquistas e avanços promovidos por outros, e dar continuidade ao que tenha sido, num primeiro momento, uma iniciativa política, mas que tenha sido apropriado pela sociedade como um bem comum. Aquele velho discurso de que “o que é bom vamos manter, o que está ruim vamos melhorar” precisa sair dos palanques e orientar de fato as administrações públicas. Gestores políticos deveriam saber que o que estão administrando é o interesse da sociedade, e não de seu partido, e o que foi deixado pelos antecessores nem sempre a população quer ver extinto. Recomeçar tudo de novo a cada eleição custa caro demais, e quem paga essa conta somos todos nós. Mas esse é um aprendizado que, parece, ainda está no be-a-bá.

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