Terça-Feira, 19 de Setembro de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Fraude eleitoral III
Nas semanas anteriores falamos sobre a fragilidade do sistema eleitoral eletrônico e sua vulnerabilidade a fraudes, já fartamente comprovada, e que, a despeito dos evidentes riscos à democracia, as urnas eletrônicas permanecem incólumes, intocáveis. E só no Brasil, porque nenhum outro país do mundo, por mais desenvolvido tecnologicamente que fosse (talvez por isso mesmo), quis arriscar-sea enveredar por esse caminho. Este é o Brasil, o país dos paradoxos e dos contrastes. A estrutura política mais cara do mundo convive pacificamente com favelas e miséria, com a insegurança pública e a saúde caótica. Salários, vantagens e benefícios faraônicos aos privilegiados frequentadores do poder caminham lado a lado com a vergonhosa remuneração relegada a professores. E por aí vai. Não é preciso relembrar as dificuldades a que é submetida a imensa maioria da população brasileira, em detrimento do conforto de uma classe de abastados com o dinheiro público.
Não quero aqui me referir aos que construíram sua riqueza a partir do seu suor, seu empreendedorismoe sua criatividade no mundo dos negócios e da livre iniciativa. É justo que alguém possa usufruir livremente de suas conquistas, quando honestas e lícitas, ainda que sob o olhar invejoso de outros não tão bem sucedidos ou até dos saudosistas das mofadas teorias de um comunismo utópico e surreal, soterradas pelos escombros do muro de Berlim e condenadas pela História a permanecerem congeladas nos Gulags da Sibéria de Stálin.
Mas, enfim, a crítica aqui não vai a essa classe, a dos empresários, executivos, profissionais liberais e outros desbravadores, que têm a liberdade de empreender e gerar riqueza, para si e para outros, posto que esta é construída a partir dos recursos livremente disputados no mercado entre os competidores que se sujeitam a seus riscos e oportunidades. O questionamento aqui é dirigido aos que se locupletam do dinheiro público, do nosso dinheiro, que não deveria estardisponível para aventuras nem muito menos para conceder a uns poucos os confortos de uma vida abastada. O dinheiro público, que é abduzido do nosso bolso pela máquina arrecadadora, constitui uma gigantescariqueza que deveria ser utilizada para prover o bem comum, ou seja, retornar a nós, cidadãos, através de investimentos, obras e serviços que não teríamos como obter individualmente, mas que se tornam possíveis através de um esforço coletivo. E que esforço! Uma das maiores cargas tributárias do mundo! Mas esta riqueza deve ser administrada para que tenha o melhor aproveitamento, o menor desperdício e os máximos resultados. E, lógico, deve ser gerida por pessoas que tenham as competências para fazê-lo, e que sejam adequadamente remuneradas por isso. Mas estamos no Brasil, que, como disse Charles de Gaulle, não é um país sério. Ainda que os ufanistas de plantão quisessem crucificá-lo à época pela frase provocadora, temos que dar o braço a torcer, porque se fôssemos um país sério essas divagações a respeito do uso do dinheiro público deveriam ser consideradas com um mínimo de interesse. Mas sabemos que não é o que ocorre. Os que se habilitam a ingressar no restrito círculo de “cuidadores dos interesses do povo” não estão cumprindo bem este papel. Seja por não disporem das tais competências, seja por não terem a necessária vocação ou disposição, seja mesmo por interesses escusos bem distantes dos propósitos da correta vida pública, buscando, antes, usufruir das benesses gentilmente oferecidas pelo sistema esdrúxulo que,como um Frankenstein, nossas elites foram construindo para si ao longo do tempo e se esforçam ao extremo para manter longe de quaisquer ameaças. As manifestações de junho mais uma vez demonstraram a fétida podridão em que se banqueteiam e lambuzam esses privilegiados: depois do momento do susto inicial, alguns discursos e estratégias diversionistas para aplacar os ânimos, e tudo continua como sempre foi. Ufa!
Mas o que tudo isso tem a ver com a fraude eleitoral evocada no título? Bem, essa introdução, que deveria ter sido sucinta, acabou me contagiando e me fez escrever mais do que pretendia, e já não temos mais espaço. Então, fica pra semana que vem, quando vamos direto ao ponto, que diz respeito ao voto nulo e em branco.

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