Domingo, 23 de Julho de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Desacato
Passados os primeiros dias após a quase inacreditável prisão de parte dos condenados no processo do mensalão, começa a baixar a poeira e algumas outras coisas vão lentamente se revelando. Entre elas, um fato que me deixa inquieto é a insistência do PT em não aceitar regras do jogo democrático que não sejam determinadas por ele. Refiro-me à obstinação em acusar a Ação Penal 470, o julgamento do mensalão, de perseguição política, de julgamento sem provas, de afronta a direitos civis, entre outras ofensas. Nem a máxima instância do sistema judiciário da Nação fica imune aos seus ataques raivosos. Parecem querer enterrar em definitivo um dos principais pilares de um “Estado Democrático de Direito” (termo tão frequentemente empregado em discursos de palanque), que é a autonomia dos Poderes, no caso, o Judiciário.
O julgamento do mensalão durou mais tempo do que a 2ª Guerra Mundial, não fugindo à regra da morosidade com que a Justiça no Brasil, em todas as instâncias, trata de seus afazeres, e por isso mesmo teve todos os prazos possíveis respeitados. Todos os recursos, presumíveis ou inimagináveis, foram apresentados pelas partes e julgados, dentro da legalidade, sendo alguns aceitos e outros não. As sessões plenárias do julgamento foram transmitidas ao vivo pela TV. Houve réus confessos, trabalhos árduos e extensos da Procuradoria Geral da República e da Polícia Federal (órgão do próprio governo!). Como alguém ainda ousa em afirmar que foi um julgamento político e de cartas marcadas? Só posso encontrar algum sentido em um posicionamento assim, mas sendo visceralmente crítico e radicalmente antagônico, se a estratégia for repetir tanto uma mentira, à exaustão, até que passe a ser aceita como verdade, como fazia Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler.
As ofensivas têm sido pouco sutis, nada diplomáticas. Em notas oficiais, dirigentes do PT disparam sua artilharia verborrágica contra o STF e, mais precisamente, contra seu presidente. Escreveram textos em que lançam “dúvidas sobre o preparo ou a boa fé de Joaquim Barbosa”, criticam a forma com que condenados (apenas os filiados ao PT, não os de outros partidos, banqueiros ou publicitários) foram presos e ainda ensaiam uma ação no Congresso, onde deputados estavam mobilizados nesta semana para criar algum tipo de moção de repúdio a Barbosa ou convocá-lo para dar explicações aos parlamentares. Felizmente parece que, neste caso em particular, prevaleceu o bom senso entre os deputados dos demais partidos e nenhum deles quis embarcar nessa canoa furada. Ou, se não foi o bom senso, talvez até tenha sido o receio de que iniciativas assim iriam contra a opinião da imensa maioria da sociedade, que não nutre a mesma simpatia pelos “companheiros” mensaleiros condenados. Enfim, o Partido dos Trabalhadores tem revelado outras facetas, um tanto distantes dos ideais democráticos que tanto prezava quando ainda era oposição. Já disse em outra oportunidade: se queres conhecer o homem (ou o partido), dá-lhe o poder.
Reproduzo a seguir alguns trechos de um texto que encontrei na internet, de autoria do humorista Danilo Gentili, que revela também sua habilidade de não só fazer rir, mas pensar:
“Quando ficou comprovado todo esquema de corrupção, o PT, diferente de outros partidos, não expulsou Genoíno, Zé Dirceu, Paulo Cunha, Delúbio e cia. Ao contrário. Abraçou-os ainda mais. Se esses caras são criminosos condenados pela Justiça e ainda são membros do PT, significa que o PT concorda com os crimes desses caras, admite criminosos entre seus membros (...). A juventude do PT fez um jantar para arrecadar fundos para os mensaleiros. Eles amam ou não esse caras que cometeram crimes contra você? Após a prisão, o próprio Lula ligou pros caras e disse: ‘Estamos juntos’. Ele é ou não um comparsa? (...) A tentativa de tentar passar por nossa goela que Dirceu e Genoino são ‘presos políticos’ consegue ser mais patética ainda do que aquele gestinho de punho cerrado que ambos fizeram (...). Como pode dois caras do partido de situação, do alto escalão do atual governo, da alta cúpula do PT, serem presos por perseguição política dentro do País que o seu governo comanda há 11 anos? Aliás, onze pessoas do esquema de corrupção foram presas. Mas somente os dois mais ‘famosinhos’ e do alto escalão do PT são presos ‘políticos’.”

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