Sábado, 25 de Março de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Complexo de vileiro
Às vezes bate uma tristeza quando se anda pela cidade. Sim, às vezes também batem umas alegrias, umas surpresas, umas esperanças, só que essas não machucam. Quando bate a tristeza, já que dói e incomoda, ela se destaca e nos chama ainda mais à atenção.
Uma das razões que me leva a franzir a testa em vez de sorrir é o aparente descaso com o que é público. Com o que é de todos. Talvez aí mesmo se encontre a razão do próprio descaso, o fato de ser de todos e, por isso, parecer ser de ninguém, porque não há um proprietário definido e que possa reclamar se sua propriedade esteja sofrendo algum dano. O proprietário, o povo, não é coeso o suficiente para reagir de imediato a agressões. A dispersão é uma ferramenta importante para o poder, e isso vem funcionando bem nas democracias modernas, especialmente essas que flertam com o totalitarismo populista, como a nossa, especialmente nessas de países de categorias inferiores, onde seu povo ainda não é adequadamente alfabetizado, não tem educação de qualidade, não é instruído e preparado para ser emancipado, cidadão. Afinal, não tem nem mesmo saúde e segurança, luta bravamente para ir saindo do chão contra todas as dificuldades impostas por um poder público que mais suga do que protege, que mais multa do que educa, que mais gasta do que investe, que coloca os seus próprios planos de perpetuação no poder acima de quaisquer interesses da sociedade... e vai se preocupar com educação? Tem tanta coisa antes pra trazer pra dentro de casa.
Mas, voltando ao ponto, andando pela cidade, a cada esquina encontram-se cantos de ninguém. É o mato crescendo junto ao meio-fio, é o buraco na rua, é a falta de sinalização, é o lixo acumulado nos passeios. Dia desses passei ao lado de uma escola na vila Americana, e vi um monte enorme de lixo de todo o tipo depositado ao lado de um dos prédios, onde deveria haver uma calçada. O cheiro era algo difícil de descrever. E de suportar. Restos de animais mortos, madeira, pedras, galhos, o que desse pra imaginar. Sim, foram pessoas mal educadas que deixaram entulho ali, e não deviam, a culpa é deles porque lugar de lixo é no lixo, mas a culpa também é do poder público que permite esse tipo de situação. E que deixa essa nojeira exposta durante semanas. E, pior, ao lado de uma escola. Ah, as crianças estão de férias? Quanta ignorância, se essa fosse a resposta. Acaso não parece óbvio que se educa e se cria cidadania a cada dia? Que exemplo têm as crianças que passam por ali todo o dia, que moram no entorno, e vêem que o seu lugar de referência, a escola, onde vão aprender a ser gente, é tratada assim? Não parece evidente que o exemplo fala mais alto? “Ah, se todo mundo joga lixo aí, então tá, é normal. Ah, e se quem deve limpar não limpa, então tá, deve ser assim mesmo. Na minha vila é assim que funciona. Na minha cidade é assim. É que aqui não é cidade grande, aqui não tem desses luxos de rua limpa, de respeito com pedestre, de higiene... Ah, mas parece que sempre foi assim. Alvorada sempre foi... tipo assim... uma vila.”
Que horror! Não dá nem pra imaginar a possibilidade de uma criança dizendo coisas assim que a gente já começa a ficar incomodado. Mas o pior é que as crianças falam isso, sim. E quando não falam, pensam, porque é o que vêem a cada dia. E, pior ainda, parece que a visão que a administração pública tem de sua própria cidade vai nessa mesma linha. Faltam lá referências do que seja uma cidade, uma urbis. A rua de chão batido já não cabe mais nos dias de hoje, que dirá o mato crescendo pelas avenidas! Apesar de uns pequenos esforços no final do ano passado, para deixar a avenida principal um pouco mais apresentável para o período natalino, não há como não se constatar que há um déficit enorme no cuidado com a cidade. A expectativa que se criou ao se empossar uma nova gestão municipal há um ano vem sendo substituída por uma frustração crescente, e isso fica nítido em qualquer conversa de roda de chimarrão, em redes sociais, em almoços de domingos. A insatisfação da população da cidade vem aumentando, e a reposta da administração pública não tem aparecido como se fez acreditar que viria. Falta comunicação, competência e atitude para a administração. Sobram cargos e salários, mas falta trabalho.
Um novo ano iniciou, e com ele procuramos renovar as esperanças de que coisas melhores possam vir. Afinal, a esperança é a última que morre. Mas não é imortal.

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