Quinta-Feira, 27 de Abril de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Maquiavel e o Planalto
Estou lendo o livro de Romeu Tuma Jr., “Assassinato de Reputações - Um Crime de Estado”, em que o ex-secretário do Ministério da Justiça entre 2007 e 2010,durante o segundo mandato de Lula na Presidência da República e tendo Tarso Genro como ministro, acusa o partido do ex-presidente, o PT, de utilizar a máquina do governo federal para montar dossiês contra adversários. Nem Maquiavel, em seu famoso “O Príncipe”, havia sugerido táticas tão audaciosas.
Em uma das acusações mais polêmicas, o delegado Tuma Jr. afirma que Lula foi informante da ditadura. Segundo o livro, o então líder sindical, sob o codinome de "Barba", repassava dados sobre greves ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), onde atuava seu pai, o delegado Romeu Tuma. O petista ficou preso em 1980 por 30 dias no Dops, após greves no ABC paulista e, ao dar informações ao governo militar, Lula garantiu privilégios na prisão, como noites de sono em um sofá do Dops e uma visita à mãe, dona Lindu, que estava gravemente doente.
Reputações e Eleições
Boa parte do livro é dedicada ao que o delegado chama de "assassinato de reputações". Diz que o então ministro da Justiça e hoje governador do RS o assediava para que deixasse vazar documentos que prejudicariam adversários. A partir da leitura desses relatos, o leitor poderá recordar de alguns casos rumorosos que abalaram o ambiente político gaúcho e contribuíram para mudar o rumo de eleições locais. Um dos mais emblemáticos talvez seja o da Operação Rodin, que um pouco antes da tentativa de reeleição da ex-governadora Yeda Crusius jogou seu nome na sarjeta e lhe grudou a imagem de corrupta, o que viabilizou a eleição de Tarso para o governo do Estado. Na Justiça, entretanto, nada tem se concretizado contra Yeda com relação à tal operação, mas o estrago em sua reputação foi feito e isso dificilmente se recupera. Coincidentemente em Alvorada e mais um punhado de municípios também foi deflagrada uma “operação”, batizada de Cartola, encabeçada pela Polícia Civil do Estado, já no governo Tarso Genro, que teve efeitos semelhantes à da Rodin, mas agora em proporções menores, bem localizadas. A consequência mais evidente em Alvorada foi, desta vez, a obstrução dos planos da coligação PTB-PDT-PMDB de permanecer no comando da prefeitura, cedendo lugar ao partido do governador. Em proporções diferentes, houve características semelhantes: operações gigantescas a um ano das eleições, com grande número de agentes mobilizados, grande cobertura da mídia (previamente convidada a acompanhar as batidas), entrevistas coletivas de delegados, enfim, um impacto forte na opinião pública. E desfechos eleitorais previsíveis.
Mais recentemente, a mídia novamente tem trazido outras dessas “operações” aqui pelos pampas. No ano passado, a um ano das eleições, tivemos a “Concutare”, em que os nomes de Berfran Rosado(PPS) e Luiz Fernando Záchia (PMDB) foram os mais atingidos, e na semana passada começamos a ouvir falar na Operação Kilowatt, cujos raiosatingem em cheio o PTB, aliado incômodo e incerto do PT no Estado. O secretário estadual de Obras, onde está o foco da operação, Luiz Carlos Busato, também presidente do PTB, queixou-se pela forma com que foi conduzida a investigação: “Os funcionários da Secretaria, condenados pela opinião pública, de uma hora para outra tiveram suas casas invadidas pela polícia, na presença de seus filhos e esposas, para serem conduzidos à força para uma delegacia. Para que isso se todas estas informações estão lá nos processos de contratação das obras devidamente detalhados? Não bastava solicitar estas informações a nós? Qual o objetivo de dizer que houve um desvio de 12 milhões de reais quando sabemos que esse é o valor da soma dos valores totais das obras? Isso só pode ter objetivo de atingir outras pessoas. Talvez a mim, talvez outras pessoas”. A propósito, na operação Cartola, também foi dito no primeiro momento pelo delegado responsável que havia um “desvio” de 30 milhões de reais, quando, na verdade, este valor era a soma de investimentos em comunicação das oito prefeituras investigadas, uma média de cinco milhões por prefeitura, e que, de acordo com as investigações posteriores, foram efetivamente realizados. Mas, de novo, o estrago já estava feito.
Recomendo a leitura do livro de Tuma Jr. Essas operações midiáticas mescladas com a propaganda do combate à corrupção começam a ter um novo sentido quando colocadas no contexto das disputas pelo poder.

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