Terça-Feira, 19 de Setembro de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


A COPA DO MEDO
Aproveitando a passagem da presidente Dilma pelo Estado ontem, para a “inauguração informal” do Beira-Rio reformado (seja lá o que signifique “inauguração informal”, mas sabendo-se que a inauguração de verdade está marcada para 5 de abril, conclui-se que a visita oficial foi para ter o nome da presidente na mídia, o que é valioso em ano de eleição), está causando desconforto a última edição da revista France Football, uma publicação francesa respeitada no mundo do futebol, que trouxe o tema da Copa no Brasil estampado na capa da edição de 28 de janeiro, com o título “Medo do Mundial” (“Peur sur le Mondial” no original).
Não encontrei a íntegra do texto traduzida para o português, mas a versão original, em francês, pode ser encontrada no endereço http://ge.tt/8tGpdZJ1/v/0?c.
A matéria não é nada generosa nem sutil. Desnuda o Brasil com frieza e faz com que leitores patriotas sintam algo de repulsa pelo texto, tantas as mazelas que são descritas, muitas ilustradas com estatísticas e valores, sobre nossa nação.
Mas pior do que a revolta que a publicação estrangeira pode causar, por falar tão descaradamente da Pátria Amada Brasil, é ter que concordar com cada informação trazida pelo periódico. E se dar conta de que, ao fim, nós é que estamos nos acostumando com o que deveríamos odiar, com o que nos deveria envergonhar, com o que deveríamos combater. E mudar. Mas, “au contraire”, anestesiados como estamos, conformistas como somos, deseducados e despolitizados como somos levados a ser, preferimos fingir que tá tudo beleza.
É verdade que o Brasil vem crescendo e evoluindo nos últimos 15 ou 20 anos. Depois da abertura da economia, do controle da inflação e da estabilização da moeda, foi possível promover muitos avanços e começar a diminuir as diferenças, incluir mais pessoas das camadas inferiores no patamar de poder de compra (não confundir com “classe média”, como tem feito a ufanista propaganda do governo) e melhorar as estatísticas de alfabetização, por exemplo. Mas, convenhamos, o ritmo desse nosso desenvolvimento é muito lento em comparação ao resto do mundo. Nossa média de crescimento tem ficado nos últimos 10 anos abaixo dos índices dos vizinhos da América Latina, dos parceiros do BRICS e da média mundial. Não surfamos na onda de crescimento global da virada do milênio, diferentemente de outras nações mais sérias. Houvesse mais gestão e menos politicagem, mais projeto de nação e menos projeto de poder, mais eficiência e menos corrupção, menos demagogia e menos aparelhamento, entre outros tantos males que sabemos bem, seríamos outro Brasil, de dar ainda mais orgulho e menos vergonha.
Nesta semana e na próxima vou tentar resumir os principais pontos da matéria da revista, e o prezado leitor decida se concorda ou não com a visão dos franceses. Começamos com o tópico “Política”: A FIFA não pediu ao Brasil para sediar a Copa, foi o Brasil que procurou a FIFA e fez a proposta. A corrupção no Brasil é endêmica, do povo ao governo. A burocracia é cultural e gigantesca, tudo precisa ser em papel e carimbado, e a informatização mal engatinha. O alto escalão do governo Lula está preso por corrupção, mas artistas e grande parte da população acham que eles são honestos, e fazem campanhas para recolher dinheiro para eles. Hoje, de tudo que acontece de errado no Brasil, a culpa é da FIFA; antes era dos EUA, já foi de Portugal, o brasileiro não tem culpa de nada. O brasileiro dá mais importância ao futebol do que à política. A carga tributária do Brasil é altíssima, maior que a da França, e os serviços públicos são péssimos, comparáveis aos do Congo. O Brasil pleiteava uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, para sentar-se ao lado da França, mas devido ao seu alinhamento com ditaduras, a França já se manifestou contrariamente. A presidente brasileira parece estar alienada da realidade e diz que será o melhor mundial de todos os tempos, melhor que o do Japão, dos EUA, da França, da Alemanha. Já a FIFA fala em maior erro estratégico da história da instituição
Continuo na próxima semana, trazendo a visão da France Football sobre os gastos com a Copa, as manifestações, a saúde, o transporte, a telefonia e outras chatices.

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