Sexta-Feira, 28 de Julho de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


A Copa do Medo, parte II
Na semana passada começamos a falar de uma importante publicação francesa, a revista France Football, que na edição de 28 de janeiro publicou uma grande reportagem, de 12 páginas, sobre o país que vai sediar a Copa neste ano. A maioria dos brasileiros poderia achar ofensiva a longa explanação, mas, mesmo a contragosto, será forçada a concordar com a dissecação, pelos franceses, de nossa Pátria Amada Brasil.
Conforme combinado, continua o relato, bem resumido, de algumas das afirmações da revista. O leitor decida se concorda ou não:
O Brasil foi o país que teve mais tempo na história de todos os mundiais para prepará-lo: sete anos, mas é o mais atrasado. A França teve apenas três anos, e finalizou as obras um ano e dois meses antes. A África do Sul teve cinco anos, e terminou com cinco meses de antecedência. A pouco mais de três meses da Copa, o Brasil ainda tem que fazer 15% do previsto.
O custo do “Stade de France” foi de 280 milhões de euros (o mais caro da França), uma vergonha se comparado ao “Olimpiastadium”, sede da final da Copa da Alemanha em 2006, que custou menos de 140 milhões de euros. Mas perto do Brasil isso não é nada. Cada estádio custa em média mais de meio bilhão de euros. E o dinheiro sai do bolso do brasileiro, tudo é financiado com recursos públicos. Na França, onde tudo foi financiado com recursos privados, os estádios são multiuso, servem para competições olímpicas, jogos de rúgbi, e são centros de lazer, com lojas e restaurantes nos outros dias da semana. No Brasil são usados só para jogos. Em Brasília foi construído um estádio para 68 mil pessoas, sendo que o time local está na quarta divisão e tem média de público de 600 pagantes. Tudo com financiamento público.
Em São Paulo há dois estádios, Morumbi e Pacaembu, e, ao invés de reformá-los, construíram um terceiro, o Itaquerão, a 23km do centro da cidade e sem metrô até lá. O ex-presidente Lula, torcedor do Corinthians, empenhou-se na empreitada. Exceto seus correligionários, ninguém acredita que Lula foi movido por amor ao “Timão”. Lula é amigo íntimo de Marcelo Bahia, diretor da Odebrecht, vencedora da licitação. Uma reforma custaria menos de 100 milhões de euros, mas o novo estádio tinha previsão de custo inicial de 300 milhões de euros (mas já passou de 500 milhões), um dos mais caros da história da humanidade. Lula e Marcelo são constantemente vistos em caríssimos restaurantes de Paris, tomando bons vinhos franceses.
Tranportes: a atual presidente Dilma Rousseff garantiu que faria um trem-bala, nos moldes do TGV Francês, que ligaria quatro cidades-sede: SP-RJ-BH-Brasília. Em 2009 foram aprovados 13 bilhões de Euros no PAC, soma suficiente para construir um TGV de Paris a Cabul, no Afeganistão. Mas nenhuma das cidades-sede tem sequer metrô até o aeroporto. Metrôs não funcionam bem, não cobrem nem 10% das cidades onde existem, que são bem poucas.
A revista entra ainda na questão da saúde e ironiza, entre outras bizarrices, a importação de médicos cubanos semiescravos e a falta de investimentos em infraestrutura no setor, lembrando que o Brasil gasta apenas 4% do seu PIB com saúde, e 12% com pagamentos de funcionários públicos. A França gasta 12% com saúde e 4% com funcionalismo.
E ainda aborda o caos da segurança pública, o alto número de homicídios (mais do que na Palestina, Afeganistão, Síria e Iraque juntos), a precariedade da telefonia celular e da internet (apesar de serem os mais caros do mundo) e, lógico, a baixíssima qualidade da educação, o que é a causa de todos os problemas apontados acima.
Esta coluna poderia continuar com esse resumo, mas precisaríamos de mais duas ou três semanas. Então ficamos por aqui, que já tivemos uma boa noção do que saiu na revista francesa, e sugerimos que o leitor faça uma rápida busca na internet, onde poderá encontrar mais informações e detalhes levantados pela France Football. Mas cabe um último alerta: a leitura não é recomendada para cardíacos, hipertensos e pessoas com estômago fraco, mas é extremamente útil para quem queira conhecer melhor o próprio país e ter mais argumentos para protestar por um Brasil melhor, seja nas ruas ou nas urnas.

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