Segunda-Feira, 29 de Maio de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Efeitos colaterais
Brasília causa alguns efeitos sobre o cérebro humano, só pode ser. Alguma coisa do clima de lá, da baixa umidade relativa do ar, do campo magnético, sei lá. Porque tudo por lá é muito diferente do resto do Brasil. Até quem não é de lá, quando chega e convive um tempo, se transforma. Coisa incrível.
Amnésia, por exemplo. É um dos efeitos mais perceptíveis. Confusão mental também. Em algumas situações chega-se a perceber até mudanças de caráter. É frequente, a gente até se acostuma, revelar-se um mau-caráter aqui e outro ali, mas em Brasília a coisa fica muito além da média. Até por aqui (afinal, onde não?) a gente vê mau-caráter em cada esquina ou cada bloco de carnaval, mas em Brasília... Será mesmo algum fator atmosférico? Ou teria mais a ver com a suntuosidade artificial e os luxos da arquitetura palaciana? Ou teria alguma relação com a proximidade do poder?
Ah, bingo! O poder! Sim, acho que é por aí. “O poder transforma”, “o poder corrompe”, “as tentações do poder”... Já são tantos os alertas que nos passaram sobre os perigos do poder, e a gente nunca deu bola, mas quem sabe tinham razão, e é isso o que acontece: o bendito poder que sobe à cabeça, não antes de passar pelo estômago e se aconchegar no bolsos.
Aí se explica tanta coisa. Aí fica fácil entender como algumas figuras, que a gente conhece tão bem de tanto vermos na TV ou nos palanques falando de “moralidade na política”, “reforma política”, “vergonhosas relações” etc. etc., de repente se revelam os mais astutos defensores do que tanto combatiam. Assim, quase do dia pra noite. Os que tanto bradavam um dia por investigações rigorosas e punições exemplares sobre desmandos do poder agora fazem de tudo pra evitar que venha a público qualquer podridão que possa existir ao seu redor. Petrobras, por exemplo. O governo tá se quebrando pra evitar que se instale uma CPI no Congresso, ou, se for instalada, então que ele tenha o controle, pra não funcionar, e se não tiver o controle, que se incluam tantos outros temas no escopo das investigações que fique impossível de se chegar a qualquer conclusão. Tudo tão diferente de quando essa turma ainda não tinha sido picada pela mosquinha azul do poder. Ou, como disse um amigo dia desses, a mosquinha “verde”, aquela que tá sempre rondando as “verdinhas”.
E, bem, isso me leva a outro raciocínio, outra especulação. Se a tese é correta, de que o poder tem esse poder até sobre o caráter das pessoas, então não seria muito descabido supor que isso pode se dar em diversos níveis, talvez até proporcionalmente ao tipo e ao tempo de exposição aos seus efeitos nocivos. Ou seja: o fenômeno poderia ser observado tanto em Brasília quanto em Alvorada, por exemplo. Guardadas as devidas proporções, lógico. Faz sentido?
Enfim, se a tese é correta, muitos comportamentos recentes da classe política que tem surpreendido alvoradenses dos quatro cantos talvez tivessem aí uma explicação. Não uma justificativa, só uma explicação. Se a tese é correta.
Carnaval de Páscoa
O desfile de Carnaval fora de época que aconteceu aqui no último fim de semana, que arrepiou evangélicos e outros cristãos mais tradicionais em plena Quaresma, alegrou a um bom número de foliões, mas também incomodou alguns ouvidos e muitos narizes na proximidade da Praça Central. Como o número de banheiros químicos instalados no local não foi compatível com a quantidade de vendedores ambulantes de bebidas, os postes e muros das imediações se transformaram no cantinho do alívio para muitos alegres consumidores de cerveja. Os moradores dos quarteirões mais próximos também ficaram muito contrariados com o volume exagerado dos alto-falantes, que não sossegaram enquanto não raiasse o sol. Enfim, se nem Jesus agradou a todos, que se dirá do Rei Momo.
Para pensar
De Abraham Lincoln (1809-1865), o 16° presidente dos Estados Unidos:
“Se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder.”

COMENTÁRIOS ()