Sábado, 25 de Março de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


OPERAÇÃO BAFO NA NUCA
O nome pode parecer engraçado, mas a intenção é séria. Um grupo de descontentes alvoradenses, cansados de protestar nas redes sociais, decidiu dar um passo além e verificar ao vivo o que acontece nas sessões da Câmara de Vereadores. As noites de terças-feiras são destinadas às sessões ordinárias, onde são lidas correspondências e projetos de lei são apresentados, entre discursos daqui e dali, homenagens a alvoradenses ilustres e outras formalidades. E lá estão aqueles Cidadãos (assim, com letra maiúscula, porque estão de fato exercendo sua cidadania), colados na nuca de seus representantes, para ver com seus próprios olhos a dinâmica dos trabalhos legislativos e sua produtividade. Ou não.
O enfado da rotina já contagiou a instituição há tempos, tanto que as leituras de atas e projetos de lei raramente são ouvidas pelos parlamentares, que ocupam seu tempo com conversas e risadas em grupinhos, mensagens no celular, saídas para cafezinho e outras distrações. Isso porque, a rigor, a votação não acontece lá, na hora. Já foi decidida antes entre as lideranças, geralmente a portas fechadas, e a sessão é uma mera formalidade para validar o processo.
A motivação por trás da iniciativa do Bafo na Nuca é fazer acontecer o que a democracia representativa pretendia, mas que na prática não acontecia: ver de perto o que fazem os nossos representantes em nosso nome. Os 17 vereadores de Alvorada, com seus salários de cerca de R$ 10 mil e mais verbas de gabinete, diárias e outros reembolsos, são muito bem remunerados, considerando-se os indicadores socioeconômicos de nossa cidade, para transformarem em leis as expectativas da sociedade. Também seria sua responsabilidade fiscalizar as ações do poder Executivo, sugerir e realizar inquéritos quando há indícios de má gestão, solicitar esclarecimentos ao prefeito e seu governo, enfim, funcionar como poder autônomo e independente, para o bom equilíbrio das forças e a saúde da democracia, representando os interesses de quem os elegeu.
Mas o papel fiscalizador do Legislativo raramente é exercido, de Brasília aos remotos rincões. O caso da Petrobras é emblemático: quando a oposição pretendeu criar uma CPI para investigar a gestão da estatal, que tem produzido bons (e caros) escândalos ultimamente, o governo acionou suas patrolas e usou de todos os meios para impedir que o legislativo federal cumprisse sua missão. E aqui em Alvorada, alguém conseguiria imaginar uma investigação dos vereadores sobre qualquer coisa no governo municipal? Especialmente agora, que até o PTB foi seduzido pelo canto da sereia governista?
Em pleno terceiro milênio, com internet, meios de comunicação de massa e instantaneidade da informação, acessível de qualquer parte e por qualquer pessoa, urge outro modelo de representatividade política. E enquanto a própria classe política não percebe isso, nem faz questão para não sair de sua zona de conforto, quem se sente desconfortável é o povo, que então começa a buscar alternativas para que o modelo ao menos seja menos improdutivo.
É o que está fazendo o Bafo na Nuca, que está recebendo o apoio de um número crescente de eleitores, e que deve começar a aumentar a plateia nas sessões de terça à noite. E a iniciativa já tem dado resultados práticos, como o pedido de explicações sobre supostas diárias pagas a servidores da Câmara, de R$ 130, para deslocamentos a Porto Alegre. O pedido foi protocolado pela vereadora Irmã Sara, depois de ser instigada por internautas em redes sociais, que haviam questionado outro vereador a respeito, mas que não soube afirmar se o auxílio existe ou não.
Outra contribuição, nesta última terça-feira, foi perceber que a Câmara votou e aprovou o projeto de Lei 044/2013, do vereador Leandro Tur, com emenda do vereador Reginaldo Rocha, que repete algo que já era lei desde 1999: embarque e desembarque de passageiros fora das paradas de ônibus, das 22h às 5h. Tem alguma coisa pra azeitar aí nessas engrenagens da máquina legislativa, e talvez um Bafo na Nuca seja mais do que oportuno.
PARA PENSAR
Do filósofo e matemático grego Platão (427-348 a.C.):
"O castigo dos bons que não fazem política é serem governados pelos maus."

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