Quinta-Feira, 27 de Abril de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


INTRANSIGENTA
Parece que tem algo errado no título? Tem mesmo. Soa mal, o ouvido estranha, e quando isso acontece geralmente é um alerta de que tem alguma coisa fora do lugar. Como a dor. A dor é um alerta do corpo, avisando que tem ferimento, que é preciso cuidar para que cure e não piore ainda mais. O som de alguma palavra estranha não faz doer fisicamente, mas alguns sentidos, especialmente os mais apurados, percebem quando há alguma ferida na linguagem.
Pois bem, eu sou intransigente com as agressões à língua portuguesa. Sou homem, e mesmo se fosse mulher, continuaria sendo intransigente. Não seria “intransigenta”. Intransigente vem do verbo intransigir, que é o contrário de transigir, tolerar, aceitar. Quem transige é transigente, mesmo sendo do sexo feminino. Ninguém é “transigenta”. Quem dirige é dirigente. Não existe dirigenta. Quem adolesce, é adolescente, e as meninas jamais serão “adolescentas”.
Pois bem, quem preside é presidente. Homem ou mulher, é presidente, como seria gerente, conferente e qualquer outro ente.
Depois de mais de três anos, meus ouvidos ainda se incomodam sempre que ouvem falar da “presidenta” Dilma. E não só por causa do crescente número de referências negativas associadas a sua gestão, mas, neste caso em particular, por causa mesmo dessa diária e insistente agressãozinha à língua portuguesa, em nome de uma ideologia e de um projeto de poder de um partido político que se assentou no trono brasiliense.
Ah, fui longe demais, diria alguém. Chamar a Dilma de “presidenta” agora é estratégia política? Bem, estratégia não, mas uma tática dentro da estratégia de poder, seguramente sim. “Presidenta” não é um pronome de tratamento dispensado a uma autoridade. É uma marca. Um símbolo, um logotipo sonoro. A psicologia da comunicação permite compreender a insistência no uso desse neologismo e o que tem por trás dessa forma inusitada de se referir, como nunca antes na história deste país, a uma mulher que preside alguma coisa.
Quando Ellen Gracie presidiu o STF, ninguém, nem mesmo o pessoal da comunicação do palácio do Planalto, referiu-se a ela como “presidenta” do Supremo. Nenhuma presidente de câmara de vereadores, de assembleia legislativa ou de conselho de administração de empresa qualquer ao longo de nosso enorme território jamais foi, seriamente, chamada de “presidenta”. Questão de gramática, de ouvido e de bom senso.
E eis que surge a primeira mulher a presidir o país, sucedendo Lula da Silva e com a missão de assegurar a permanência do PT no poder por um período de pelo menos 20 anos, como confidenciou certa vez José Dirceu, para que se implantassem no Brasil seus projetos há tanto tempo idealizados.
Dilma deverá ser diferente. Não somente uma mulher, a primeira a presidir o país, mas algo além disso. Alguém com uma marca forte, para não se esquecer e não cair nas banalizações do cotidiano. Alguém que, sempre que fosse mencionada, causasse um tipo qualquer de reação no ouvinte, ainda que inconsciente, subliminar, e mesmo que fosse algum pequeno incômodo, mas que não passasse despercebido. E um pequeno errinho de português serve como uma luva. E pode ainda se prestar a dois objetivos: chamar a atenção, sutil mas permanentemente, pelo inusitado e, com o tempo, acabar por se naturalizar, transferindo à pessoa da primeira mulher com esse título um poder que não é dado aos mortais comuns: o de transformar até o idioma e adestrar os ouvidos mais exigentes. Se até isso pode, o que mais não poderia com o Brasil? Ela pode. Ela está acima, é poderosa, é potente. Potenta, não. Aí já é demais, fere o ouvido. Mas presidenta, tudo bem.
Tem mais do que uma ingênua gentileza em tratar Dilma Rousseff por esse pronome. Aí tem é estratégia. E da boa. A palavra-chave aqui é “subliminar”. E nesses assuntos essa gente é competente. Não “competenta”. Isso, só a “presidenta”.

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