Terça-Feira, 19 de Setembro de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Malfeitos
Não foi só a pavorosa compra da refinaria americana de Pasadena que serviu para escoar fortunas da nossa Petrobras pelo ralo, ou por bolsos alheios. Esse episódio, em que se gastou mais de R$ 2 bilhões por um equipamento que havia sido comprado meses antes por cerca de R$ 100 milhões pelo proprietário anterior, já seria suficiente, num país sério (que não é o nosso caso), para fazer rolar muitas cabeças. Em um regime parlamentarista, certamente até um primeiro-ministro não seria poupado, ao dilapidar o patrimônio da maior empresa do país. Na Coreia do Sul, por exemplo, por causa de um naufrágio de um barco, que vitimou mais de 300 estudantes, o premier Chung Hong-won anunciou sua renúncia no último domingo por conta da fraca resposta do governo na tragédia. Isto é um exemplo de um país sério, onde se assumem os erros e se paga por eles.
Já na República Tupiniquim, bem, sabemos como a coisa funciona. Tragédia após tragédia, seja em perdas humanas ou no patrimônio da nação, o que for, as autoridades seguem incólumes em seus tronos. Collor foi uma exceção, mas mais por conta de sua inabilidade política na relação com o Congresso do que por prejuízos à nação.
No caso da Petrobras, lotada até o pescoço de cargos comissionados, e que já perdeu metade do seu valor de mercado nos últimos quatro anos, passando de 10ª maior empresa mundial para a 120ª posição, os “malfeitos” viraram procedimento-padrão. Esse termo “malfeitos”, aliás, um eufemismo para pilantragem, corrupção, roubo etc., tem sido muito usado por Dilma em seus discursos, quando afirma que não terá descanso em combatê-los, enquanto, na prática, mobiliza todos os esforços para que imperem o silêncio e a inércia.
A Refinaria Abreu e Lima, que está sendo construída em Ipojuca, na região metropolitana do Recife, é só mais um desses exemplos assombrosos. Com previsão de investimento de R$ 2 bilhões para a construção, e inauguração planejada para 2010, já custou mais de R$ 20 bilhões e ainda está longe de ficar pronta. Aí já não é mais caso de corrupção. “Malfeito” também é um termo muito brando, não se aplica. O nome adequado é impublicável. Talvez por isso Dilma e seu governo não queiram esclarecer nem deixar investigar, porque não se enquadra na categoria de “malfeito”.
Piada de brasileiro
O ex-presidente Lula concedeu uma entrevista a uma TV portuguesa no último fim de semana. Pensando que só espectadores de além-mar fossem assisti-lo, sentiu-se à vontade para dizer que “o mensalão nem existiu”, que “80% do julgamento foi político e 20% foi técnico” e que os condenados não eram pessoas de sua confiança.
Seu ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, não era de sua confiança? O ex-presidente de seu partido e um dos principais interlocutores do governo na Câmara, José Genoino, não era de sua confiança? O tesoureiro de seu partido e responsável pelas finanças de suas campanhas, Delúbio Soares, não era de sua confiança? Ah, tá. Entendi. É pra rir agora?
Quem sabe faz ao vivo
A sessão da Câmara, na última terça, está dando o que falar. Auditório lotado (boa parte por CCs liberados mais cedo de seu trabalho para ocupar as cadeiras e impedir que servidores e seu sindicato dominassem o espaço, já que haveria a tão esperada votação dos salário dos monitores) e a turma do Bafo na Nuca marcando presença, foi perceptível o desconforto de alguns dos vereadores, pouco habituados a representar seus eleitores em sua presença. Houve até legislador que aproveitou o privilegiado espaço da tribuna para desqualificar alguns dos cidadãos que se prestaram a acompanhar seus, digamos, trabalhos. Teve também vereador desinformado que chegou a questionar o “reajuste de 45% dos salários”, quando na verdade esse percentual se referia ao adicional de risco de vida, que antes era de 30%. É alentador perceber que cada vez mais pessoas estão querendo assistir ao vivo e a cores as peripécias semanais de seus representantes. Afinal, cidadania é isso.

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