Segunda-Feira, 29 de Maio de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


NEOCOMUNISMO
Políticas sociais do governo federal, seu alinhamento ideológico e estratégico com os regimes de Cuba e dos países do eixo bolivariano (Venezuela, Bolívia e Equador), discursos dos dirigentes e documentos do partido da presidente têm provocado o uso cada vez mais frequente desse termo: neocomunista. O comunismo marxista clássico é obviamente inviável no mundo atual, em meio à globalização, à democratização da informação e à internet, mas seus conceitos centrais ainda inspiram saudosistas românticos das utopias que mexeram com as sociedades dos séculos XIX e XX, e os fazem ainda acreditar que, a despeito das provas em contrário oferecidas pela História recente e contemporânea, o mundo seria melhor se vivêssemos uma grande irmandade socializada, tutelada pela mão forte de um Estado onipresente. Alguns deles, hoje em postos-chave do núcleo do poder, buscam novas formas de implantar sua revolução, não mais pelas armas, mas pelas brechas da democracia.
MEIAS PALAVRAS
Documento produzido no último encontro nacional do PT, em abril, que define as linhas gerais das táticas de campanha deste ano, traz frases como: “defendemos a aceleração e radicalização da integração latino-americana e caribenha (leia-se Cuba, Venezuela, Bolívia) e uma política externa que confronte os interesses dos Estados Unidos e seus aliados." Diz ainda: “A conquista da maioria do povo passa pelo trabalho fundamental de difusão do nosso programa, de mobilização dos setores socialmente beneficiados por ele" (leia-se: dos beneficiários do Bolsa-Família e similares). Está lá, num complexo documento publicado no site do partido, para bons e medianos entendedores.
PASSO POR PASSO
Depois dos 11 mil médicos cubanos, da ingerência do governo sobre a internet através do Marco “Civil” e de tantas outras iniciativas peculiares, há duas semanas, sem qualquer alarde, agora que todas as atenções estão sendo levadas à Copa, a presidente Dilma publicou o Decreto 8.243, que cria uma tal “Política Nacional de Participação Social” e um certo “Sistema Nacional de Participação Social”, para que a “sociedade civil” participe diretamente em “todos os órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta”. O problema está na definição de “sociedade civil” no decreto: “o cidadão, os coletivos, os movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações”. Ou seja, quebra-se o princípio básico da democracia (uma pessoa, um voto) para dar poderes “aos movimentos sociais institucionalizados ou não”, e aos “coletivos”. São justamente esses grupos que historicamente deram sustentação ao PT, tanto para que chegasse ao poder quanto para que se mantenha lá, e que, se antes o faziam pela força da mobilização de eleitores, agora têm esse privilégio concedido por decreto presidencial. Karl Marx, se vivo, estaria radiante.
RESISTÊNCIA
Não é pouca coisa. O Decreto 8.243 de 23/05/14 mexe radicalmente no modelo democrático brasileiro e na ordem constitucional, copiando práticas vigentes em Cuba e implantadas na Venezuela. Tanto que, apesar da discrição e do silêncio do governo sobre o tema, dez partidos assinaram proposta na Câmara nesta semana para votar, em regime de urgência, um decreto legislativo que anule os efeitos do decreto presidencial, chamado por alguns de “decreto bolivariano”.
CORPO MOLE
A decisão de colocar em votação a proposta legislativa está nas mãos do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que não esconde as manobras para a coisa não andar. Como é candidato a governador e espera ter Dilma em seu palanque, não quer desagradá-la neste momento. Coisas da política brasileira atual, onde os privilegiados donos do poder o utilizam para seus fins pessoais, antes dos interesses da sociedade, enquanto a nação é gradativamente apresentada ao neocomunismo, como sapo na panela.

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