Segunda-Feira, 21 de Agosto de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Tempos difíceis se aproximam. Violentos, até. A tensão está no ar. E não temos nenhuma liderança para acalmar os ânimos. Ao contrário, o que vemos é uma escalada de bravatarias e incitação ao confronto. A máxima autoridade do país, Dilma Rousseff, já não tem mais credibilidade para ditar os rumos do país. Poucos acreditam nela, e estes estão acuados. O mercado, quando o governo aponta para um lado, corre para outro. O povo faz crescer o coro da insatisfação com a corrupção generalizada, e se mobiliza para novamente ir às ruas. O principal partido aliado dá seguidas mostras de que não é assim tão fiel. O ex-presidente Lula, em vez de assumir um papel de estadista e conciliador, atua como incitador de badernas, ameaçando ir com sua militância para a briga e convocando o “exército” do MST. E, por fim, o governo não consegue mais criar uma agenda positiva, não pode mais oferecer pacotes de benesses como fazia à exaustão. A fonte secou, as contas estão pra lá de vermelhas e não tem mais como adiar cortes de gastos e aumentos de impostos para evitar a bancarrota. Mentiu enquanto pôde, para garantir a reeleição, mas agora paga um preço alto, e já não pode deixar de praticar as maldades que havia acusado o adversário de pretender fazer. Estamos todos num avião em turbulência, onde se inicia um motim, e o piloto é um zumbi.
E como não há nada tão ruim que não possa piorar, as investigações sobre a gigantesca pilhagem da Petrobras avançam rápido, revelando a cada dia mais aberrações que nossas lideranças cometiam com a maior serenidade. Indícios apontam também para a Eletrobras, BNDES e onde quer que o governo tivesse colocado suas mãos. E não com o propósito de meia dúzia de gatunos enriquecerem rápido, mas como meio de garantir bilionários recursos para alimentar um projeto de manutenção e perpetuação do poder. A quadrilha que se instalou no Planalto com a chegada de Lula apossou-se da estrutura da administração pública para dali sugar o que conseguisse, que fosse reutilizado tanto em suas campanhas eleitorais, garantindo larga vantagem sobre os concorrentes, quanto para a compra dos apoios que viabilizassem a tão necessária “governabilidade”, um eufemismo para descrever a sustentação política dos detentores do poder.
O castelo de cartas, entretanto, ameaça ruir antes do que se previa. O Brasil não é exatamente uma Venezuela, onde o mesmo caminho já vinha sendo trilhado há mais tempo, e permitiu a Hugo Chávez se manter no poder enquanto fosse vivo, e, mesmo morto, seu projeto bolivariano seguiu em frente nas mãos do aloprado Nicolás Maduro. Por aqui, onde as Forças Armadas não garantem o mesmo apoio ao governo como lá (as FFAA venezuelanas são das poucas no mundo consideradas de “esquerda”), e a sustentação precisa ser construída no campo político (com apoios periféricos a cargo dos “movimentos sociais”), a coalizão em torno do governo tende a se tornar muito volátil sob pressão, como se tem observado.
O PMDB, supostamente o principal aliado, não está fazendo questão de demonstrar fidelidade. No programa partidário da semana passada, mostrou que vai trilhar seu próprio caminho. “Não são as estrelas que vão nos guiar”, repetiram algumas vezes, e em nenhum momento foi mencionado o nome da presidente. Tentaram convencer o eleitor de que estão liderando verdadeiras transformações no país, com suas principais lideranças à frente de grandes projetos de interesse nacional. Nesta semana, às vésperas da temida lista encaminhada por Rodrigo Janot ao STF, Renan Calheiros e Eduardo Cunha impuseram pesadas derrotas ao governo no Congresso, em fortes sinais de distanciamento. A mensagem pareceu clara: “não afundaremos com este barco; já estamos saltando.”
Resta ver o peso que terão as manifestações marcadas para 15 de março. Serão o golpe de misericórdia ou só mais um degrau nessa escalada? É o povo, afinal, que ainda exerce o maior poder, quando tem consciência disso.

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