Segunda-Feira, 21 de Agosto de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


Falar a verdade poder ser uma atividade de risco no atual governo. Dois ministros já caíram nos últimos dias por conta disso. Primeiro foi Cid Gomes, da Educação, que foi ao Congresso para explicar porque havia afirmado que entre os parlamentares havia “400 ou 300 achacadores”. Esperavam que ele se retratasse, mas o que ouviram foi a confirmação da indelicadeza inicial, ainda que honesta. Gomes, de dedo em riste, cobrou dos aliados do governo que se portassem como tal, sem exigir favores em troca, ou então “que larguem o osso”. Quando foi chamado de mal educado, apontou para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e disparou: “Prefiro ser chamado de mal educado do que, como ele (Cunha), ser chamado de achacador.” Logo depois teve o microfone cortado e se retirou, indo direto ao encontro de Dilma para apresentar sua renúncia, que encontrou já assinada.

Quem manda aqui?
Curiosidade: coube ao presidente da Câmara anunciar em primeira mão a destituição de Cid Gomes. Só depois é que o governo divulgou nota. E até agora a Pátria Educadora continua sem um responsável pela educação no país (e, convenhamos, não só pela educação; o país está acéfalo, Dilma está zonza, e o PMDB é que vem dando as cartas).

Premeditado
O gesto de Cid Gomes foi calculado. Encontrou na polêmica com o Congresso a oportunidade de abandonar o barco, diante da ruína iminente do governo petista. Pretendeu sair como bom moço, que diz as verdades e não compactua com aproveitadores. Foi recebido pelos conterrâneos cearenses como herói.

Sincericídio 2
A outra queda motivada por excesso de verdade foi do ministro Thomas Traumann, da Secretaria de Imprensa da Presidência da República. Na melhor das intenções, Traumann produziu um documento para circulação interna, em que fazia uma avaliação crítica do desempenho do governo, um “mea culpa” especialmente relacionado à deficiente comunicação com a sociedade, o que vinha contribuindo para a queda de popularidade da presidente. Afirmou que os eleitores, e até a militância, vêm se sentindo desiludidos com as ações do governo, muito diferentes das promessas de campanha, e com as crescentes denúncias de corrupção, às quais o governo não tem conseguido oferecer respostas consistentes. Em resumo, disse que o país vive um “caos político” e as atitudes do governo têm sido “erráticas”.

Boca aberta
Traumann também confirmou o que já se falava a boca pequena, mas até então não se podia provar: o governo utilizou “robôs” para espalharem, em profusão, notícias favoráveis pela internet durante a campanha, e que o cancelamento dessa atividade depois do pleito cedeu espaço para as notícias negativas que vêm minando a confiança da sociedade no governo. Mentiu? Obviamente não. Mas perdeu o cargo por isso. O problema é que o documento vazou, e agora todos sabem que até dentro do governo se admite o que o povo diz nas ruas, mas a presidente insiste em disfarçar em pronunciamentos e entrevistas.

Conclusão
A verdade poder ser inconveniente. Melhor repetir cegamente o discurso oficial. É mais seguro.

COMENTÁRIOS ()