Quinta-Feira, 22 de Junho de 2017 |

Colunista


Entre Linhas


Werner Pfluck


wernerpfluck@hotmail.com


A Câmara de vereadores deu uma boa demonstração, nesta semana, de que é possível ouvir a sociedade e estar alinhada com ela. O Plano Municipal de Educação foi aprovado na sessão da última terça e, por causa da mobilização de setores da população, que levaram aos vereadores sua insatisfação sobre itens que haviam sido inseridos no Plano sem serem suficientemente debatidos, foram apresentadas emendas e retirados alguns pontos polêmicos. Pena que essa sintonia não seja algo permanente. Boa parte de nossos “representantes” se dão ao trabalho de representar os nossos interesses, em vez dos seus, só debaixo de certa pressão.

Malandragem
A maioria dos municípios e estados do Brasil foi vítima de uma esperteza do governo federal, que espalhou modelos de Planos de Educação municipais e estaduais contendo temas que o Congresso havia retirado do Plano Nacional de Educação proposto pelo MEC. Especialmente com relação a "ideologia de gênero". Burlaram o Congresso e a vontade popular. Mas em Alvorada, como em algumas outras cidades, o Legislativo seguiu o exemplo do Congresso e também barrou esses temas. O mesmo ocorreu no Plano Estadual, que foi votado na Assembleia na última quarta. Entre discursos acalorados e protestos das galerias, prevaleceu a vontade da maioria dos deputados, que entenderam que não deveria constar em um plano de educação para os próximos 10 anos a inclusão de conteúdos relacionados à “ideologia de gênero”. A maioria da sociedade ainda prefere deixar a abordagem desses temas aos cuidados da família, onde são construídos os valores básicos das crianças de acordo com a cultura, a religião ou a orientação moral dos pais. Entendem que, na escola, através de professores que possam eventualmente ter concepções diferentes das famílias, as crianças possam estar sendo apresentadas precocemente, e de maneira controversa, a assuntos relacionados a sexualidade e identidade de gênero. Na Assembleia gaúcha, os deputados do PT, PCdoB e PSOL eram os que defendiam a inclusão desses temas no currículo escolar.

Fora de foco
O drama das doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez na adolescência, cada vez mais acentuado e precoce, merece atenção, e é oportuno que na escola os jovens recebam orientação adequada. Mas da forma como os planos foram redigidos, a partir dos modelos distribuídos pelo MEC, os conteúdos a serem abordados iriam muito além, avançando significativamente na questão de liberdade de gênero, ou seja, que meninos e meninas possam definir livremente sua orientação e sua identidade, independentemente de suas características biológicas. E, o mais polêmico, poderiam ser introduzidos já a partir de séries iniciais, expondo crianças à discussão de temas que ainda não seriam naturalmente objeto de seu interesse nessa idade.

Desperdício
O fato é que essas discussões absorveram muito tempo, atenção e energia, na reta final da elaboração dos planos. Sobrou pouco espaço para discutir o essencial, que é a qualidade da educação. A meta de alfabetizar crianças até o terceiro ano, e não mais no primeiro como antigamente, e a “progressão continuada” até o nono ano, eliminando a reprovação e criando certa confusão de conteúdos e métodos de avaliação entre os diferentes ciclos escolares, por não ter recebido a devida atenção, acabou sendo incluída na maioria dos planos Brasil afora. O objetivo de qualificar efetivamente a educação e, através dela, começar a construir uma grande nação, ficou a desejar. Quem sabe nas próximas gerações possa surgir um plano de verdade.

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