Terça-Feira, 20 de Fevereiro de 2018 |

Estudantes de curso pré-vestibular gratuito são aprovados em vestibular de universidade pública

Até o momento cinco alunos já passaram, seja de forma direta como também pelo SISU

Por Redação em 02 de Fevereiro de 2018

"As alunas Hechiley e Claudia (em pé) foram duas das cinco aprovadas no primeiro ano do curso" (Foto: Guilherme Wunder)


O sonho de cursar o ensino superior é próximo para alguns e muito distante para outros. Isso principalmente em bairros periféricos, onde faltam condições financeiras para pagar pela universidade ou para algum cursinho pré-vestibular. Nestes casos, as únicas opções acabam sendo o ENEM e as universidades públicas, onde o acesso é bastante concorrido.

Contudo, por mais que existam dificuldades, também existem pessoas que buscam alternativas. Isso tanto os alunos que querem se aperfeiçoar para entrar em uma universidade como também os professores que já passaram por isso e agora querem encontrar uma forma de auxiliar quem busca o mesmo sonho. É desta premissa que surgiu o Pré-Vestibular Minervino de Oliveira.

E, em seu primeiro ano em funcionamento, o corpo docente, já conseguiu colher os seus primeiros frutos. Isso porque, dos 30 alunos que encerraram o curso em outubro, logo após o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), cinco alunos já foram aprovados em universidades federais. Esses estudantes passaram para a universidade federal através do processo seletivo da instituição e também do SISU.

O pré-vestibular

Para saber um pouco mais sobre como funciona o curso pré-vestibular, desde a idealização do projeto até os primeiros resultados apresentados que a reportagem do Jornal A Semana visitou o IFRS Campus Alvorada e conversou com os professores e alunos. Estiveram presentes no encontro os professores que deram início ao projeto, Leandro e Janice Gomes; e as alunas Hechiley Maraya, que passou para bacharelado em Música; e Cláudia Priscila, que foi aprovada em licenciatura em Química.

Janice conta que a ideia de desenvolver um curso pré-vestibular gratuito sempre esteve no planejamento dela e do marido (Leandro), mas que faltava algo para levar essa ideia adiante. Foi somente depois de conversar com outros professores que o projeto começou a ganhar forma. “Há um ano um colega nosso entrou em contato com o desejo de criar um cursinho desses. A gente pensava muito nisso e, quando vimos que existiam outros malucos que nem a gente (risos) que queriam fazer isso, nós começamos a mobilizar os professores”, explica a professora de literatura.

Porém, apesar de começar a ter receptividade de professores, faltava um espaço físico para abrigar o projeto. Inicialmente a ideia era lecionar na União das Associações de Moradores de Alvorada (UAMA), mas o espaço era pequeno e não tinha um aspecto de sala de aula. “Como sou professor da rede pública, comecei a procurar um lugar mais acessível e com cara de sala de aula. O problema é que muitos acabaram negando. Isso pelos mais variados motivos. Apesar de gostarem da ideia, ninguém assumiu o projeto conosco. Até que surgiu o IFRS e eles nos propuseram ficar aqui. Hoje até pensamos como foi bom as outras instituições não terem nos aceitado, porque a estrutura aqui é diferenciada”, salienta o professor de linguagem.

Antes de o IFRS surgir como sede do curso, foi na UAMA que ocorreram as entrevistas com os alunos interessados. Foram mais de 100 estudantes que procuraram a nova instituição para se preparar, mas somente 50 foram contemplados e puderam cursar. Para isso houve uma entrevista para saber qual a importância que o jovem via no estudo. Essa limitação ocorreu devido ao número de professores e do espaço físico que a sala de aula comportava. O cursinho funcionava de segunda a sexta-feira à noite, além de aulas especiais nos sábados.

Exemplo para o futuro

Até o momento foram cinco aprovados pelo curso pré-vestibular gratuito, porém, os números ainda podem aumentar. Isso porque ainda falta sair os resultados do PROUNI e existem mais chamadas nos vestibulares federais. Só que, por mais que não existam novos aprovados, esses cinco alunos já podem ser vistos como exemplo, tanto para outros estudantes que querem como também em suas famílias. Pelo menos é isso que salientaram todos os quatro entrevistados.

Para Gomes, a ideia de se desenvolver uma formação como essa tinha como objetivo mostrar para os alunos de periferia e escolas públicas, que estavam estudando apenas para obter um diploma, de que o lugar deles em uma universidade estava lá. “O talento deles que passou. Eles que passaram. Agora outros resultados virão. Para nós é gratificante ver essa vontade e esse sucesso nos nossos alunos. Todos podem. Eles só precisam acreditar”, relata o professor.

Para Hechiley, que passou em Música na UFRGS, esse curso foi de fundamental importância para poder obter sucesso no vestibular. Tanto é que ela entrou faltando três meses para o fim do cursinho e ressaltou ter aprendido muito neste período. “Eu estava estudando pela internet, mas no cursinho ficava tudo mais claro. Têm coisas que eu não aprendi em três anos de estudo no ensino médio que eu aprendi neste período curto aqui. No ENEM do ano passado eu não entendia nada e nesse eu já vi uma mudança grande”, conta a alvoradense.

Claudia conta que, aos 30 anos, conseguiu retomar os estudos – a alvoradense se formou no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) – e se dedicou para passar no vestibular. Feito esse que foi conquistado através do SISU. “Eu estava sem estudar desde 2008 e o meu ensino foi bem precário. Aprendi muito neste curto período. Eu não tinha perspectiva nenhuma em fazer ensino superior. Eu não tive a oportunidade de sonhar em entrar na faculdade, porque precisava trabalhar”, desabafa a jovem.

A alvoradense, que foi aprovada e deve cursar Química, fala ainda que espera poder ser vista como exemplo dentro de sua família, por ser a primeira que irá cursar ensino superior. “Daqui pra frente eu tenho certeza de que todas as gerações da minha família mudaram. Eu ter sido aprovada faz com que mude o futuro de todos da minha volta. Eu tenho essa visão e vou incentivar todos a fazerem o que eu fiz. Se hoje eu consegui, sei que o meu os meus filhos também vão querer”, ressalta Claudia.

Cidadania

Um dos principais fatores que os professores buscaram passar para os alunos, além de todo o aprendizado para o sucesso no vestibular, era um aspecto social e de cidadania. A ideia era conseguir transformar a vida dos jovens que ali estavam. “Os nossos alunos tem uma estima baixa e chegam desmotivados. Eles não acreditam que vão obter sucesso. Nós queremos prepara-los para a prova, mas também queremos prepara-los para a vida”, salienta Janice.

Serviço

Para este segundo ano do curso, os professores pretendem abrir duas turmas ao invés de uma. Contudo, isso só é possível se mais profissionais se solidarizarem com a causa e quiser participar Faltam professores para todas as disciplinas. Interessados em participar podem procurar a direção do curso e devem ter disponibilidade de dar aulas uma vez por semana no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) Campus Alvorada, no Bairro Salomé.

As primeiras reuniões para organizar o ano serão feitas em fevereiro, onde serão definidas datas de inscrição. As aulas devem começar em abril. Os interessados podem entrar em contato com a equipe que coordena o curso através das seguintes formas: pelo e-mail: minervino.cursopopular@gmail.com; pelos telefones 99124-7899 (professor Leandro) e 99879-6425 (professora Janice). A expectativa por parte dos coordenadores é de que tudo esteja acertado até o dia 12 de fevereiro.

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