Sexta-Feira, 12 de Agosto de 2022 |

Conselho tutelar celebra 30 anos da posse do primeiro colegiado eleito pela população

Em junho de 1992 assumiram os seus cargos os primeiros cinco eleitos

Por Redação em 01 de Julho de 2022

"Foram 34 candidaturas homologadas e cinco deles foram eleitos em abril de 1992" (Foto: Arquivo A Semana)


Em junho deste ano, foi celebrado 30 anos da posse dos primeiros cinco conselheiros tutelares eleitos pela população alvoradense. Foi em 01º de junho de 1992 que os conselheiros Valdecir de Mello, Maria de Lourdes, Ivo Kretschmer, Aldoni Bica e Glasfira Monroe foram até a Câmara de Vereadores para serem empossadas para os primeiros três anos do Conselho Tutelar.

30 anos se passaram desta época e duas conselheiras já nos deixaram: Maria de Lourdes e Glasfira Monroe. Já os demais conselheiros eleitos seguem vivos e a reportagem do Jornal A Semana conversou com dois deles: Ivo Kretschmer e Aldoni Bica foram entrevistados para esta matéria especial. Já Valdecir de Mello não foi localizado até o fechamento da edição.

As experiências de Ivo Kretschmer

Ivo Kretschmer conta que veio para Alvorada em 1975 para trabalhar na Casa da Criança Alvorada e, em 1992 – ano da eleição – a entidade estava quase no seu auge. Eles tinham boa estrutura física, mais de 30 colaboradores, 300 crianças atendidas e um trabalho reconhecido. Foi somente após conversar com Pedro Paulo Signor (membro do COMDICA) que ele compreendeu a importância do Conselho Tutelar.

Foi essa conversa com o empresário que fez com que ele ficasse interessado e decidido à concorrer. Contudo, ele afirma que ficou surpreso com o resultado e muito feliz com o seu trabalho. “Sinto orgulho e satisfação do que vivi. Preciso dizer que o Conselho me foi um aprendizado ímpar. Um momento inesquecível e que nenhum banco escolar pode dar”, relata Kretschmer.

Por mais que esteja distante do Conselho, ele afirma ter orgulho e gratidão por ter feito parte de um processo histórico e importante da cidade. Inclusive, Kretschmer se recorda de passagens com o pastor Ari Pfluck e com os seus colegas. “Só para se ter ideia, Glasfira e eu começamos atender num espaço improvisado na antiga Câmara de Vereadores tendo uma classe escolar velha como escrivaninha”, conta o ex-conselheiro.

Comparando com os dias atuais, o alvoradense explica que hoje as condições e a quantidade de conselheiros são muito melhores e ele afirma ficar triste com os dramas que surgem nas redes sociais e os seus desfechos, pois acredita que isso dói não apenas nas vítimas diretas. Por causa disso, Kretschmer afirma que o maior problema hoje está no processo eletivo e em como conduzir os melhores para cumprir esta tarefa.

Os relatos-históricos de Aldoni Bica

Morador do Bairro Tijuca, Aldoni Bica também tinha um trabalho social forte na cidade. Era diretor da creche Beija-Flor e presidente da Associação de Moradores. Além disso, era membro ativo da União das Associações de Moradores de Alvorada (UAMA), que muito debateu o Estatuto da Criança e do Adolescente e o processo eleitoral do Conselho Tutelar.

Ele conta que, quando a lei foi aprovada, por ser algo muito novo para todos, essas reuniões se tornaram constantes. A ideia era deixar claro para todos. “O ECA foi muito debatido pelos movimentos comunitários. Muitas sugestões que vieram das associações de moradores foram incluídos neste estatuto. A pauta para a criação do ECA foi delineado a partir do anseio e da vontade popular”, justifica Bica.

A vontade de concorrer nunca passou pela sua cabeça, mas o prefeito Pedro Antônio sempre o incentivou a concorrer – primeiro a vereador e depois a conselheiro. No início, ele não quis concorrer ao Legislativo, mas aceitou o desafio de buscar uma cadeira no Conselho. Os bons resultados nas urnas o fizeram também buscar um espaço na Câmara – algo que ele afirma se arrepender, por não ter cumprido o mandato de conselheiro.

Contudo, por mais que tenha vencido no Conselho e sido vereador, ele afirma que não esperava vencer o pleito de conselheiro. “Eu fiz uma brincadeira com o pessoal da imprensa e disse: se eu não fizer 400 votos na Escola Podalírio, não me candidato nem a sindico (risos). Todos caíram na risada e, quando saiu o resultado, eu tinha cumprido essa meta”, encerra Bica.

Há mais de 30 anos tudo começou

Por mais que o primeiro colegiado tenha tomado posse em junho de 1992, um ano antes – em agosto de 1991 – já se trabalhava para a eleição do primeiro colegiado do Conselho Tutelar de Alvorada. Foi nessa época que o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (COMDICA) convocou o juiz eleitoral para prestar esclarecimentos sobre os procedimentos daquela eleição.

Já em outubro daquele ano foi lançado o edital de inscrição para quem quisesse concorrer ao cargo de conselheiro tutelar – o cargo é eletivo. Na época, o mandato era de três anos e podia apenas uma reeleição. Quem quisesse concorrer precisava ter mais de 21 anos, ser residente-eleitor de Alvorada e ter experiência reconhecida e comprovada de, no mínimo, dois anos no trato com as crianças e adolescentes.

Contudo, o processo não saiu como o esperado. O prazo inicial para publicação do edital era a primeira quinzena de outubro, mas o COMDICA publicou nos dias 17 e 18 – dois dias depois do prazo. Só que, por ser um processo novo – essa seria a primeira eleição para o cargo de conselheiro tutelar –, afinal a Lei Municipal era de 1990, não se compreendia muito o que deveria ser feito.

Tanto é quem durante aquele processo, a eleição passou do juiz eleitoral para o COMDICA. Na época, o vice-presidente, Ari Pfluck, falou com o Jornal A Semana. “Esperamos que o Legislativo altere a data da eleição, cuja data fora marcada para o segundo domingo de dezembro, postergando para março ou abril de 92”, pediu na época.

Em novembro daquele ano se cogitou adotar um processo eleitoral diferente. Ao invés do voto de toda a população, uma das propostas previa a votação apenas das entidades registradas em cartório, mas isso acabou não indo para frente. Já em abril de 1992, foram os divulgados nomes que concorreriam ao até então inédito cargo de conselheiro tutelar. Foram 34 candidaturas homologadas.

Já no dia 26 de abril ocorreram as eleições. No início, foram apenas quatro pontos de votação (Escola Almira Feijó, Escola João Goulart, Escola Castro Alves e Escola Podalírio) e a apuração ocorreu no Salão Nobre da Prefeitura. Foram 4.466 votos e, na época, os eleitores poderiam escolher até cinco candidatos em sua votação, que teve os resultados divulgados na noite de domingo, 26/04.

O conselheiro mais votado foi Valdecir Carlos de Mello, com 969 votos. Depois dele veio Maria de Lourdes Monteiro, com 927 votos; seguida de Ivo Arnaldo Kretschmer, com 714 votos; Aldoni Lopes Bica, com 585 votos; e Glasfira Monroe Kurtz, com 548 votos. Cabe ressaltar que Glasfira empatou com Mara Rubia da Silva Ribeiro, mas assumiu pelo critério de desempate – ter mais idade.

Esses foram os cinco empossados em cerimônia do dia 1º de junho de 1992, na plenária da Câmara de Vereadores – algo que deu orgulho aos COMDICA. “Esse é um momento histórico para Alvorada, pois o município foi uma das primeiras cidades do Rio Grande do Sul a instalar seu conselho. Os membros do conselho terão em sua frente sérios obstáculos já que são os primeiros a começarem este trabalho”, falou Ari Pfluck.

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