Sexta-Feira, 01 de Julho de 2022 |

Colunista


Direito e Cidadania


Andrea Maisner



O PRECONCEITO PELOS POSITIVADOS COM COVID

É notório que o avanço da vacinação em todo o País e aqui em nosso Estado tem contribuído para diminuir o contágio do COVID-19 e suas variantes, bem como amenizar os sintomas daqueles positivados.

No entanto, a mais recente variante do vírus, batizada de ômicron se mostrou altamente contagiante e se espalhou como pólvora pelos países e voltou a lotar hospitais por aqui.

Os relatos de quem contraiu COVID, são em sua maioria, sobre os sintomas que a doença causou, se houve gravidade ou necessidade de internação ou eventuais sequelas. Poucas vezes se ouve falar do preconceito enfrentado por aqueles que testam positivo.

Recentemente pude sentir na pele o que enfrenta um positivado de COVID.

Ao passar mal por outro evento de saúde não relaciona – intestinal e que demandava cirurgia – precisei ir até a emergência de um hospital e, com o diagnóstico de que deveria realizar procedimento cirúrgico fui encaminhada – como é o protocolo – para realização do exame de PCR para COVID.

Não tinha nenhum sintoma dos relatados comumente pelos médicos e acometidos da doença, ou seja, nenhum espirro, nada de tosse, nariz sem coriza, tampouco febre ou diarreia. Obviamente contava com um resultado negativo. Foi positivo para COVID.

Daquele momento em diante deixei de ser apenas uma paciente com protocolo de urgência, classificação vermelha nos protocolos de risco dos hospitais, passei a ser uma paciente a qual todos querem evitar chegar perto.

Meu procedimento demandava exames complexos como tomografia computadorizada com contraste e vários exames de sangue, os quais foram feitos, porém de uma forma surreal.

Cumpre referir que tenho imensa admiração pelos profissionais da área da saúde, especialmente aqueles que lidam mais diretamente com os adoentados, como equipe técnica, enfermagem e auxiliares no geral. Dito isso, não há crítica expressa a esses profissionais específicos que vem, desde 2020, enfrentado condições de trabalho além do que se pode imaginar de insalubridade, com extrema exposição a contaminação.

O meu objetivo aqui é retratar que há, ainda enraizado no ser humano, um preconceito com aquele doente que precisa de tratamento mesmo sendo portador de uma doença contagiosa e, muitas vezes mortal.

Não é apenas o COVID-19 que é contagioso e pode matar. Há inúmeras outras doenças que tem as mesmas consequências como por exemplo, AIDS, TUBERCULOSE (que é altamente transmissível e se não tratada pode levar a morte), EBOLA (sim, ebola existe e continua matando) e a própria H1N1.

Durante o período em que precisei ficar hospitalizada (em torno de uma semana) precisei ficar na ala de isolamento para pacientes com COVID, passar pela cirurgia e retornar à mesma ala para recuperação. Não há acompanhantes. Esse privilégio é apenas para idosos e, atualmente bebês e crianças de até 5 anos. Fiquei completamente sozinha e sem conseguir me mexer para nada, sequer ir ao banheiro. Fiquei três dias sem tomar banho porque teoricamente OU ninguém quer auxiliar um paciente com COVID no banho OU pacientes com COVID não precisam de banho. Repiso que eu não tinha sintomas e me mantinha de máscara, além de que os poucos profissionais que adentravam o quarto estavam sempre muito bem protegidos e com roupas especiais (quase como astronautas) e por lá permaneciam o menor tempo possível.

A comida, por incrível que pareça, era praticamente atirada dentro do quarto. No meu caso que só podia tomar líquidos, eram “largados” 4 copos às 8h da manhã, ou seja, um copo com o líquido do café, outro do lanche das 10h, outro do almoço (caldo salgado que certamente ao meio dia estaria gelado) e outro com o lanche da tarde. Não era permitido sair do quarto para nada, quiçá utilizar o microondas do corredor para aquecer os caldos.

Minha reflexão é: a precaução é necessária para evitar mais contaminação não há qualquer dúvida, mas o preconceito e a falta de empatia não podem acompanhar aqueles que deveriam dar alento aos enfermos.

Estamos passando um momento de retomada das atividades e aprendendo a conviver com esse vírus e, mesmo assim, conceitos antigos e preconceito ainda imperam em nossa sociedade.

O ser humano precisa mais do que uma vacina para as doenças, precisa de uma vacina para o preconceito.

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