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Opinião

“Rolezinho” é 1º na escala “Richter”

Por Redação em 11 de Abril de 2014


Não estão entendendo nada do Brasil contemporâneo (que demoramos 514 para construir) os que estão vendo os “rolezinhos” como meras brincadeiras da juventude, molecagem, “Occupy Shopping” ou como simples iniciativas de alguns “vagabundos” marginalizados da periferia. Eles, na verdade, não passam de uma resistência ativa de primeiro grau (na escala “Richter” dos protestos ou contestações sociais). É muito menos que as manifestações de junho/13 assim como menos que as decaptações do presídio de Pedrinhas, no Maranhão. Mas muito mais que a resignação e conformação que marcaram a vida dos pais e avós dos atuais “rolezeiros” (que agora contam com o poder de convocação das redes sociais).
O Brasil é, hoje, um país extremamente complexo e socialmente muito doente (extremamente desigual). Suas crises de febre já são e serão mais ainda muito frequentes. Na onda do capitalismo financeiro flexível vigente no mundo ocidental, ou apesar dele, mais de 30 milhões de brasileiros saíram da miséria nos últimos 20 anos (governos de FHC, Lula e Dilma). Mas o muito que foi feito ainda é pouco, porque é enorme as distancias entre as classes sociais. Desde logo, para que não haja equívocos: penso que o capitalismo é o pior dos regimes econômicos, com exceção dos demais.
Não há como entender os “rolezinhos” sem saber que existem, agora, quatro classes sociais no Brasil (Jessé Souza, Os batalhadores, 2012): a alta, a média, a classe C e a classe D (que o autor citado denomina de “ralé”). Até uns 10 anos atrás a classe C ainda não havia ganho identidade. Para mostrar que o Brasil está indo na direção do primeiro mundo (que conta com uma grande classe média) começaram a chamar essa classe C (milhões de brasileiros) de classe média. Eis o problema! Boa parcela dessa classe C acreditou no discurso e começou a conferir. Rapidamente notou que, de classe média, tem muito pouca coisa, porque não possui seus capitais econômico, cultural, social etc. nem acesso a serviços públicos de qualidade (saúde, educação, transportes etc.).
O clima festivo do consumo está chegando ao seu final. Até porque, consumo é como droga: cada vez queremos mais! Não poder consumir, para o desorientado humano contemporâneo, significa enorme frustração, que gera irresignação, que gera indignação, que gera crimes ou apenas os “rolezinhos”. Milhares de protestos (alguns violentos) virão. Não são mais do que febres de um Brasil socialmente doente. A conta está chegando. É o inferno de Dante (Divina comédia): “Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno” (das contestações e dos protestos contínuos contra as injustiças e desigualdades profundas do país).

Luiz Flávio Gomes, jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil

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