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Opinião

A enchente da cada um

Por Redação em 30 de Agosto de 2013


De repente eu me pego num pensamento egoísta, sábado, tarde de noite, quando me passam por telefone a situação dos primeiros desabrigados no Caí. “Se esta chuva não der trégua, se esta enchente não recuar, vai invadir a estrada do Pareci”, pensei. Aí, só me resta dar a volta lá pelo pedágio do Portão – e pegar pedágio! – para trabalhar.
Imediatamente parei para refletir sobre este arroubo de egoísmo que me invadiu. Mas o que é minha voltinha a mais, comparado ao drama de quem teve sua casa invadida pelas águas? Ou invadida por ladrões, estes que todo ano aproveitam a entrada das águas em seus próprios vizinhos para roubar? O que são meus cinco reais de pedágio, minha gasolina a mais, perto daquele bebê que precisa dormir no frio de um ginásio, à mercê de tudo?
Mas é algo do ser humano. Talvez de qualquer espécie de ser vivo. Enxergar, primeiro, o que lhe causa desconforto. E só depois o que acontece com o outro. Mesmo que perto de si e por mais grave que seja. Isto é natural. O importante é se dar conta. E se dar conta, aí sim, é racional. Como não permitir que a sua insatisfação umbilical e humana seja capaz de mover, interferir ou atrapalhar as ações do coletivo. Que este olhar primeiro e instintivo para si não permaneça a ponto de mover a coisa pública – e aí se torna mais grave ainda. Que o egocentrismo não permita que a busca do seu conforto implique, por sua essência ou necessidade de se concretizar, na condenação de outra vida sem as mesmas chances.
O mesmo frio que será romântico para um casal, em Gramado, será mortal para uma criança em desabrigo. E os casais não deixarão, nem podem deixar, de namorarem ao frio da Serra. Mas a criança precisa ser vista e ajudada pelos que têm este dever, e, ainda, pelos que têm coração. Que são todos. Que não devem nem permitir a omissão dos que têm este dever. A mesma seca festejada pela família na praia é a desgraça do agricultor. E não se impedirá a família de descontrair ao som do mar e à luz do céu profundo. Mas que se pense no campo, ou esta mesma família ficará sem ter o que comer.
A água que sobra, a água que falta. O mundo gira sob sua própria diversidade, nos ensinando a lidar com ela a cada instante. Que se viva a magia das diferenças que encantam. Mas que se exercite a minimização das diferenças que fazem doer. E que nos banhe uma enchente de solidariedade e de compreensão.

Oscar Bessi Filho
27/08/2013

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