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Opinião

A triste realidade brasileira

Por Redação em 04 de Abril de 2014


“Essa gente já sofre demais
São tratados como animais
E só querem um pouquinho de paz
E precisam ouvir racionais.”
(Netinho de Paula- Gente da gente – Negritude Jr.)

Ainda aturdido, triste e revoltado com os últimos acontecimentos ocorridos, que resultaram na morte brutal de uma cidadã, pobre, negra e trabalhadora, resolvi refletir e fazer uma sucinta análise da questão, contextualizando os fatos.
Claudia da Silva Ferreira, em um domingo, em uma operação policial, ocorrida no morro da Congonha, Madureira, Rio de Janeiro, reflete uma triste realidade brasileira: Pobreza, miséria, falta de oportunidades, preconceito racial e polícia mal preparada. Tem mais algum fator que eu tenha me esquecido? O corpo já inerte daquela mulher, mãe de quatro filhos e guardiã de quatro sobrinhos, mulher de um marido desolado, foi arrastado por 250m em uma via de movimento intenso. Antes, foi jogado no porta malas de uma viatura da polícia. Nós sabemos que não foi apenas uma mão que apertou aquele gatilho que pôs fim à vida daquela pobre mulher, mas uma série de fatores. O aparato policial, já estava naquele morro para cumprir com seu dever – combater o tráfico de drogas -. Incursões, que no relato dos próprios moradores, é diário naquele local. No Brasil, o crime convive com as comunidades carentes de forma natural. Ver criminoso portando armas de grosso calibre pelas ruas é cena comum na periferia.
Não me adiante dizer que a polícia errou. Errou sim, isto é óbvio, todo mundo viu, ainda que não se saiba ao certo se os policiais efetuaram os disparos que deram cabo na vida daquela pobre moradora local. Mas errou. Ocorre que aquele tipo de operação parece ser de rotina naquele local. O certo e o que não se pode perder de vista, é que esta situação não foi criada pela polícia. Estes três policias serão, certamente, punidos, na medida de suas responsabilidades, mas a pergunta é, até quando as Claudias da Silva Ferreira irão ser confundidas com traficantes e serão mortas em seu lugar? Até quando estas comunidades carentes serão reféns, de um lado, de criminosos, movido pela busca do lucro fácil com as vendas de substâncias entorpecentes e de outro, policiais despreparados, ou, quiçá, treinados apenas para matar pessoas? Que país nós queremos para o futuro dos nossos filhos? A polícia realiza incursões diárias nas favelas por que todas as outras instituições falharam ou não se fizeram presentes. Infelizmente, é esta a realidade brasileira. O morro da Congonha não está apenas em Madureira, no Rio de Janeiro, mas em toda a parte do Brasil. Em qualquer lugar que tenha comunidades carentes, fatalmente, lá também estará o tráfico pesado de entorpecentes; a falta de escolas; de professores; a enorme quantidade de crianças em situação de risco e por consequência, as incursões diárias da polícia, despreparada, mal paga e com uma prática muito comum, atire primeiro, pergunte depois. A atirando e matando pessoas que, segundo a estrofe da música, já sofre demais e são tratados como animais.

Nilton Cesar Paulette de Oliveira
Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB Subsecção Alvorada/RS

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