Sbado, 22 de Janeiro de 2022 |

Opinião

Aconteceu mais uma vez sob as mesmas circunstâncias

Por Rodrigo Padrini Monteiro - Psicólogo em 22 de Agosto de 2014


Essa é uma frase que ouvimos bastante há algum tempo e, infelizmente, fala de um novo ato de violência que ocorreu perto ou longe de nós. Alguém tomou um tiro e está em estado grave no hospital. Outro foi assaltado no sinal. Alguém foi vítima de um sequestro relâmpago. "Está cada vez mais perto", é outra frase que escuto bastante.
Existem muitos conceitos e sentimentos que definem o momento que vivemos como "a cultura do medo", "imaginário do medo", constante insegurança, incerteza, preocupação excessiva, cautela. Muitos textos e opiniões citam a violência social como um resultado da organização da sociedade, um saldo negativo da desigualdade social. Não discordo desse ponto de vista, a violência é uma herança. A sociedade produz sim indivíduos que recorrem a violência como forma de lidar com a injustiça social. De onde estamos, nada justifica a violência, mesmo uma vida repleta de humilhações e dificuldades. Uma vingança. Talvez se estivéssemos na pele do criminoso entenderíamos um pouco melhor.
"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem" - Bertold Brecht
No entanto, já existem diversos setores da sociedade (talvez insuficientes) se preocupando com os motivos que levam um ou outro a cometer um crime, com formas de reduzir a formação de novos criminosos através da prevenção e também com a reinserção social de quem já teve sua punição.
O resultado da sociedade é visível. O aumento da violência é um fato. Existem números e a mídia só fala nisso. Não quero questionar se existe uma teoria da conspiração por trás de toda a imprensa querendo produzir medo nas pessoas, de modo que aceitemos a força policial e as medidas autoritárias do Estado como atitudes benevolentes dos nossos governantes, que se preocupam com a gente. Essa análise é muito delicada.
Mas quais os efeitos psicológicos que a violência produz em mim? O efeito individual. Não estou falando sobre a violência direta que por acaso um indivíduo sofreu (doméstica, sexual, psicológica, etc.) e nem da violência extrema (uma morte, uma agressão), mas sim a observação da violência, o relato do ato violento que alguém próximo de nós vivenciou, um assalto, um roubo, um insulto. Não precisa ser psicólogo para dizer que ter um conhecido assassinado ou saber que a padaria que você frequenta todos os dias foi assaltada balança, mesmo que levemente, a cabeça de alguém.
O saldo relacional é mesmo conflituoso. Pode gerar união ou desunião, coletivismo ou individualismo. Mas como a proximidade da violência nos afeta individualmente? Afinal, por mais que sejamos seres sociais, convivemos vinte e quatro horas com os nossos pensamentos.
Também somos seres violentos, talvez de formas diferentes, mas somos. Enxergamos algo de nós nas pessoas que consideramos extremamente violentas? Somos da mesma espécie.

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