Sbado, 22 de Janeiro de 2022 |

Opinião

Ameaças à liberdade de expressão em Montenegro

Por Oscar Bessi Filho Escritor e colunista, foi colaborador do Jornal A SEMANA e hoje escreve no Correio do Povo e em outras publicações pelo Rio Grande do Sul. em 22 de Março de 2013


A ditadura acabou, mas tem gente que não sabe. E em Montenegro se está dando um mau exemplo que não pode deixar a sociedade calada. A ACOM – Assessoria de Comunicação da Prefeitura Municipal – tem patrocinado um festival de ameaças, ofensas, deboches e ironias em redes sociais que dão inveja aos piores tiranos da história. Não aceita qualquer questionamento ou posições contrárias e reage num nível extremamente baixo. E a Assessoria de Comunicação, palavra oficial de um órgão – ainda mais de um órgão público, pago por nós! - nem tem que ter posição pessoal, deve apenas informar o que está sendo feito de forma transparente, equilibrada e sensata para que concordemos ou não. E este concordar ou não é a nossa liberdade de pensamento que define, nunca a própria ACOM.
O último episódio é a ameaça a um cidadão livre, um rapaz que trabalha como estagiário em empresa de informática montenegrina que teria fechado algum contrato com a Prefeitura. O recado da ACOM deixou claro que a posição contrária deste cidadão deveria ser levada a conhecimento dos seus chefes, numa clara ameaça ao seu emprego posta em entrelinhas. Todos entenderam. O que se espera é que a empresa não compartilhe desta prática de ameaças. E, pelo que conheço de seus donos, não compartilha. Muito menos o prefeito deve aceitar isto como normal. Vamos acompanhar o caso.
Este desequilíbrio afronta princípios básicos da Constituição Brasileira. Garantias fundamentais do cidadão. Truculência se resolve com registros de ocorrência policial e processos judiciais – como noutros tristes episódios recentes, de tentativas de agressões físicas a ofensas morais. Eis o alerta. Uma administração que se pretende “do povo” não pode permitir isto. A não ser que, como as piores ditaduras do planeta, também queiram usar este chavão como justificativa para instalar o desmando, a barbárie e a lei do mais forte. Equívoco bobo e vaidoso: ninguém será mais forte que o povo, jamais. Os tempos de cangaço se foram. Estamos em 2013.
O prefeito está vendo isto? Deputado de tantos anos num partido que já foi ícone de combate à ditadura, tanto tempo atuando como legislador em nosso sistema democrático de direito, vai permitir uma coisa dessas? Que providências tomou ou tomará? O questionamento desta coluna é o questionamento de cidadãos montenegrinos, que sustentam a prefeitura municipal com seus tributos, e dela esperam serviços, não ameaças e brigas que nascem de frustrações pessoais. Esperam dignidade e cidadania. E respostas concretas.
Não sabemos, ao certo, quem toma estas atitudes, mas o prefeito tem como saber. E o dever de tomar uma atitude. E explicar como ficou para toda a população. Há dias em que o perfil da ACOM em redes sociais surge fidalgo e educado. Noutros, o exato contrário. É mais de um agente? Haverá sindicância para apurar as afrontas à Constituição? Teremos acesso a esta sindicância? Há diversos vereadores postando seus feitos em redes sociais. Algum deles já tomou providência? Qual? Quando? O que fez?
Não podemos ficar parados perante ameaças. É como no combate às drogas: a cada recuo do bem, o mal toma conta. Saramago já tinha avisado que a nossa democracia é de mentira. Mesmo assim, não podemos nos calar. E gostaria muito que o prefeito, tão admirado pelo seu jeito espontâneo de conversar com todos, e seu chefe de gabinete, trabalhista de muitas lutas, nos digam algo a respeito destes fatos.

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