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Opinião

Crises de estar no mundo

Por Redação em 14 de Fevereiro de 2014


O pensamento de Heráclito é complexo. Ao conhecimento popular chegou que “não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio”. Heráclito entendia que a realidade era dialética: o real era resultado do conflito, da tensão entre contrários. Ora, em sendo a realidade um resultado, então ela estaria sempre no devir. A parábola do rio traduz seu pensamento: ao se retornar a um rio, ela já não terá as mesmas águas, então se estará a entrar no que o rio tornou-se, não no que o rio era quando nele se entrou.
O Livro de Areia, conto de Borges, me diz que eu posso tentar decifrar o livro que comprei do vendedor que me bateu na porta. Leio-o, tento decifrá-lo. Mas ele me diz infinitas coisas; e se volto a ele, percebo dizeres que antes não percebera; e se não cuido, escapam-me aspectos que antes notei. Parece que caio em uma trama: o livro e eu jamais chegaremos a uma conclusão sobre o que ele quer me dizer, ou sobre as leituras que faço dele.
Heráclito fala das mudanças nas coisas do mundo, nunca me permitindo encontrá-lo igual. Borges diz das relações necessariamente instáveis da minha relação com tudo, inclusive com as ideias que se me foram entranhando. Mas eu gostaria de falar ainda de uma terceira coisa que creio que existe: o eu de uma natureza humana que nunca está pronta; o eu resultante do meu passado, mas que também é o meu devir.
O mundo não para de se modificar (Heráclito). As certezas com que eu poderia compreender o mundo não se estabelecem (Borges). E eu mesmo? Fico eternamente inconcluso? Não é nada simples jamais estar rematado, pois nunca nos sabemos o suficiente para nos apaziguar. Isso me faz pensar sobre mim a partir de mim mesmo: nunca estou na condição de compreender o mundo, as coisas e as ideias, porque jamais permaneço igual a mim. Então, acabo não me entendo a mim.
Eu, que me quero indivíduo único, penso que sou inexplicável, acredito que isso só acontece comigo. Mas minha instabilidade, minhas incertezas, minhas emoções alteradas, meus sentimentos me traindo, isso tudo é exatamente o que sou, mas também é o que é toda a humanidade. Sim, temos algo de particular, mas mesmo nisso entra a tentação da estrutura social, que me oferece modelos de adaptação às ideologias dominantes, aos modos de produção, aos costumes formatados.
Eu quero ser eu, mas quero ser eu com reconhecimento dentro de um sistema estabelecido: se sou um ser social, quero uma receptividade pública. Para isso, sem contar com a estabilidade das coisas (Heráclito) em um mundo sempre se me apresentando de maneira diversa (Borges), não me reconhecendo igual a mim mesmo, tenho que me impor socialmente. Não suporto a tarefa, entro em crise.
Essa natureza humana move a História. Mas me interessa como me movo a mim mesmo. Não gostamos de admitir, mas nossas crises têm um padrão. As sociedades primitivas tinham rituais de passagem. Os indivíduos submetiam-se a celebrações que marcavam o seu status na comunidade. Sua condição social lhe era dada pelo rito. A sociedade contemporânea não tem ritos que nos leve a algum lugar, mas competição anônima por um lugar não sabido. Pomo-nos a competir por uma posição no sistema, mas não sabemos exatamente o que disputamos, nem com quem.
Tenho, em crise, que me fazer guerreiro e disputar meu lugar social incerto. Não será simples me governar quando, na puberdade, meu corpo mudar de repente; ou quando, adolescente, me exigirem os códigos de ingresso na vida adulta; ou quando, adulto, me ditarem as normas impessoais do que se chama de “ganhar a vida”, ou quando, depois de contribuir com o “mercado”, me pedirem para cair fora. Agora, se eu souber que não devo nada disso nem a mim nem a ninguém, tudo será mais divertido, até as crises de estar no mundo.

Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC, psicólogo e jornalista

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