Sbado, 22 de Janeiro de 2022 |

Opinião

Dostoiévisk, gênio

Por Léo Rosa de Andrade, doutor em Direito pela UFSC, psicólogo e jornalista, professor da Unisul. em 26 de Julho de 2013


Não está nada politicamente correto distinguir pessoas pela capacidade intelectual. O bom tom em vigor insiste em nos igualar a todos. Há, inclusive, teorias com lastro científico a sustentar essa pretensa igualdade. Por exemplo: os mais limitados apenas deixaram de ter as mesmas oportunidades: em iguais condições, teríamos potencial equivalente; as inteligências são específicas: um peixe não voaria, um macaco nadaria mal; a inteligência é emocional: eu gerenciaria minhas emoções e as dos outros, colocando-as a trabalhar na direção que quisesse.
Há estudos de outras formas ou expressões de inteligência. Existem pesquisas e produções sérias. O problema está na exploração simplificada do tema: dizem-se bobagens conformes ao contentamento do freguês. Ora, de fato, oportunidades revelam inteligências; claro, dificilmente alguém produzirá inteligentemente em muitas áreas de conhecimento; é evidente, emoções podem ser compreendidas e relativamente controladas. Agora, oportunidades não criam inteligências; dedicação a uma especialidade facilita; um desatinado emocional dissona das circunstâncias.
Eu não sei a quantas anda a leitura de Dostoiévski. Nem mesmo me asseguro de que permanece circulante a existência do romancista russo. Mas, se puder, ajudo a noticiar que ele existe, sugiro listá-lo nas prioridades da vida e afirmo, vendo-o como quem vê algo mais acima: o cara é genial. Claro, Dostoiévski não necessita de meu aval. Eu é que até posso ganhar alguns créditos ao exibir intimidade com ele. Mas minha intenção é outra: é mostrar sua compreensão antecedente de algumas teorias que marcaram o mundo algum tempo depois dele.
Certamente todos sabemos quem são Marx, Freud, Sartre. Seus ensinamentos nos propiciaram reler o humano em sua condição intrínseca e a humanidade em seu estado social. Com esses três concorda-se, deles discorda-se. Acrescente-se ou se subtraia do que pensaram, os três são história. Muito do que os três expuseram sistematizadamente foi, antes, dito literariamente por Dostoiévski. Aqui não cabem tantos; nem cabe tudo de um. Fico com alguma coisa do que, posteriormente pensado por Freud, foi anotado nas Recordações da Casa dos Mortos (Ed. Martin Claret).
“Talvez fosse essa constante insatisfação íntima para consigo mesmo a causa da intolerância no trato usual com os demais...”. “Restava-lhe um consolo: a ideia de mortificação. Bem declarou ele que não fora ódio pelo major que o levara a agir daquele modo, e sim apenas a vontade veemente de infligir a si mais o sofrimento. Quem sabe lá que processo psicológico se desdobrou em seu ânimo!” “A realidade tende, como variação, a se dicotomizar de forma perpétua. Num interstício resta sempre um escaninho da vida, não a efetiva; mas a íntima, a impenetrável.” “A possibilidade de mudar o destino se apresentava de chofre, pensamentos recalcados emergiam de novo.” Tudo isso é psicanálise.
Admiro quem perceba e reconheça a desigualdade intelectual de alguns humanos: essa condição superior dos gênios. Quero dizer, leio e pretendo que compreendo Dostoiévski, mas jamais serei assim genial. Então, presunçoso e humilde, dou-me bem comigo por me fazer na categoria de ler e compreender o gênio; mas dou-me igualmente bem comigo por estimar meu (autoatribuído) estado de possibilidade: um bom leitor, um esforçado escritor.

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