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Opinião

Facebook, beleza e felicidade

Por Léo Rosa de Andrade Doutor em Direito, psicólogo e jornalista. em 10 de Maio de 2013


Com alguma distância no tempo, ao olharem para a nossa época, ela será definida como o tempo da internet. Vantagens à parte, a internet surge como uma nova religião: quem não a segue ou não se torna parte do seu espetáculo é tratado como herege. O trânsito social tradicional perdeu seu lugar para a internet. Todos devem estar conectados, dela fazendo parte como uma comunidade de seguidores. Os que não aderem a ela devem ser convertidos. A própria imagem de pessoa boa e correta é recapitulada na rede. Acaba-se acreditando em vida virtual, dedicando-se mais a ela do que à vida real.
Na net impera o Facebook – um ambiente multiuso, fácil de operar, de indistinta acessibilidade e gratuito; autoriza conversa íntima e negócio, texto sério e frase fútil, correspondência e desabafo, cultura e vaidade. Como é praticamente livre, permite que a ninguenzada excluída de outros meios abra uma página e viva a ilusão de frequentar, como se dele fizessem parte, os ambientes virtuais que notórios populares frequentam, acompanhando-lhes a vida em geral escandalosa, valorizando fofocas.
No Facebook existe muita vida inteligente, mas a maior parte volta-se a fofocar: bisbilhotar e se oferecer à bisbilhotice. O fenômeno contemporâneo resulta de excesso de exposição e visibilidade: pessoas informam onde e com quem estão e o que estão fazendo em tempo real, e comunicam afazeres corriqueiros, como refeições e higiene, enaltecendo cada vez mais a necessidade que têm de publicar todas as suas atividades, objetivando o compartilhamento com seus contatos e nesses contatos encerrando o seu horizonte.
Agora, nesse fenômeno de total e permanente exposição de acontecimento da vida corriqueira, além do excessivo exibicionismo que se vê, observa-se uma falsificação de estado de emoção. Sabidamente a sociedade contemporânea é angustiada ou depressiva, ou pelo menos compra alucinadamente remédios prometedores de felicidade química. Entretanto, no Facebook todo mundo é feliz.
(...)
O que uma sociedade pensa de si sempre resulta de uma complexidade de coisas. Há relações de poder, há ideologias etc., mas também há idealizações que se coletivizam. Parece que o Facebook está formatando uma idealização de sociedade feliz. De repente, encontramo-nos todos substituindo situações originais por cópias sorridentes, falsificando-nos e aceitando falsificações. O falso perfeito e feliz é posto no lugar do mundo incompleto, conflituoso, real. Claro, é tudo mentira, mas o mentiroso ilude-se a si próprio enquanto mente ao público, que cumpre um combinado geral de artificializar.
O problema é sustentar essa efêmera representação. Fora da rede seguem os erros, as imperfeições, as necessidades da vida, os transtornos existenciais. A estética do fabricado estado de contentamento extingue a chance de se tomar consciência da realidade e mesmo do próprio ego. O eu cuidador de mim é substituído pelo curtir que me autoriza fantasiar a minha aparência e a minha personalidade. Emilly Fidelix e eu escrevemos este texto, e concluímos: a net é boa, mas a vida é bem melhor na real.

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