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Opinião

Segurança e o fim da pirataria

Por Kobi Lichtenstein em 01 de Março de 2013


O crescimento da onda de violência em todo o país tem deixado a população amedrontada e insegura. Quando cheguei ao Brasil, na década de 90, para difundir o Krav Magá, me deparei pela primeira vez com a imagem que reflete a palavra medo. Encontrei uma população aterrorizada, que anda nas ruas sem joias ou roupas que representem riqueza.
As pessoas carregam seus sapatos finos ou tênis de grife em sacolas de supermercado, para serem utilizados apenas no local de trabalho ou em algum evento social. Adolescentes não andam sozinhos nas ruas, mesmo durante o dia, e se locomovem levados por seus responsáveis de carro. As entradas dos prédios são cercadas de grades e os portões permanecem trancados. As pessoas vivem acuadas e se abstém de seu poder aquisitivo por conta de um atuar passivo.
Eu sou nascido em Israel, país cercado por inimigos e onde guerras e ataques terroristas fazem parte do cotidiano. Passei por quatro guerras, ao longo de minha vida, mas vim conhecer o medo no Brasil, uma situação estranha para mim. Isso porque, desde criança, aprendi que a única chance de se ganhar uma situação de violência é enfrentando-a. Esse foi o meu primeiro conflito cultural no Brasil.
Por toda a minha vivência, acredito que a população pode fazer parte do combate à violência urbana e, para tanto, não é preciso ser um especialista em algum tipo de arte marcial. É possível enfrentar a situação com autoconfiança.
Porém o Brasil vive outro grave problema, além da falta de segurança: a pirataria. Nos últimos anos, um movimento mundial e desenfreado pelo culto ao corpo fez nascer uma verdadeira indústria no que diz respeito à prática de atividades física. Essa “exigência” da sociedade moderna pela beleza, que nada tem a ver com a busca por uma vida saudável, atingiu também práticas de Lutas e Artes Marciais, o que resultou em um aumento indiscriminado do número de academias e, também, de pessoas não-qualificadas a ministrarem as diversas modalidades de lutas.
As distorções praticadas por pessoas despreparadas para o ensino das artes marciais podem causar lesões físicas e psicológicas aos alunos. E, mais que isso, pode dar a esses alunos uma falsa sensação de segurança, por pensarem estar bem preparados para enfrentar a violência nas ruas.
(...)
Para ter condições de se defender, é necessária a união entre o conhecimento técnico e a capacidade mental, o que é desenvolvido em treinamentos programados e avaliados. Porém, hoje me deparo diversos anúncios de “treinamentos relâmpagos” de Krav Magá, que prometem formar instrutores em curtos períodos de tempo. Se a população, que hoje se vê acuada diante da violência, passa a ganhar confiança baseada em falsos treinamentos, o resultado pode ser ainda pior, podendo vir a acrescentar e não retirar números às estatísticas da Secretaria de Segurança.
A população pode e deve tomar parte no combate à violência. Assim como pode – e deve – tomar parte no combate à pirataria, para que possamos mudar de forma consistente a realidade da segurança nas cidades.

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