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Opinião

Universidade para todos

Por Redação em 06 de Junho de 2014


"Prefiro apontar que as medidas, mesmo que surpreendentes, surgem para melhorar a formação dos estudantes, mas o que conta mesmo é o extraordinário processo de inclusão universitária promovido em nosso país"

A Universidade Federal de Santa Maria foi pioneira no Brasil ao inaugurar seu campus, em 1960, numa cidade do interior, rompendo a concentração dos estudos acadêmicos nas capitais. Assim, através da obstinação do seu fundador, o professor José Mariano da Rocha Filho, abriu-se a oportunidade do acesso ao conhecimento científico aos estudantes da metade Sul do Rio Grande, tendo em vista a localização da UFSM no centro do Estado. E para lá deslocaram-se contingentes expressivos de estudantes em busca de formação para atender às carências regionais, especialmente na agropecuária. Na faixa de fronteira, inúmeros veterinários, engenheiros agrônomos e florestais, para citar apenas a área rural, retornaram para aplicar seus conhecimentos na melhoria da produção local. Pois 54 anos mais tarde, a UFSM inova ao decretar o fim do seu processo seletivo de ingresso, o temido vestibular, decisão que surpreendeu os estudantes apesar de a aprovação ter o apoio do conjunto da representação universitária. A forma de acesso à Universidade se dará preferencialmente pelo desempenho no Enem, que até agora apenas era considerado para uma pontuação única, agregada ao desempenho das provas de seleção tradicional. Uma das questões mais polêmicas da alteração seletiva é o fato de que em outras experiências semelhantes as vagas perderam em parte o vínculo regional. Alunos de outras regiões do país passam a ter acesso mais amplo às Universidades distantes de seus estados de origem. Deste debate dois conceitos emergem e devem ser valorizados. Em primeiro lugar, ocorre uma espécie de oxigenação com característica nacional, fortalecendo o sentimento de pertencimento federativo. Em segundo, consagra e amplia o sentido público da Universidade. É a política pública que qualifica a formação e gera oportunidades para as novas gerações. É claro que a concorrência neste novo processo é muito maior, mas é certo que a médio e longo prazo as vagas vão aumentar, incluindo maior número de estudantes. A mudança ainda inclui várias perspectivas e interesses, como o das escolas preparatórias, o consumo que beneficia o comércio nos dias do vestibular e a identidade dos estudantes na escolha da Universidade onde pretendem fazer seu curso. Certo é que muitos ajustes deverão ser realizados até o total reconhecimento do novo processo seletivo. Prefiro apontar que as medidas, mesmo que surpreendentes, surgem para melhorar a formação dos estudantes, mas o que conta mesmo é o extraordinário processo de inclusão universitária promovido em nosso país pelo acerto de uma política pública que abriu as portas das universidades para todos.

Afonso Motta
Advogado e produtor rural

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